Venezuela: Cachoeiras e abismos de Canaima

fevereiro, 2005

Se você mora em Boavista, Roraima, você deve saber que o custo da gasolina na Venezuela é tão baixo que você pode encher qualquer tanque com menos de 10 reais. Mas ao atravessar a fronteira de carro e chegar em Santa Elena de Uairén você também vai descobrir que no país vizinho existe muito mais do que gasolina barata. Para isso, você precisa se aventurar pela Grande Savana.

Alguns anos atrás eu vi uma foto que me deixou intrigado. Tratava-se de uma cachoeira na Grande Savana de apenas três metros de altura e com muito pouca água. O curioso era a sua cor: o leito do riacho parecia ser vermelho – e um vermelho brilhante. Custei a entender a foto. O vermelho era a cor da água? Ou essa coloração vinha de alguma alga? Ou seria ainda a cor da própria pedra?

Quando apareceu uma oportunidade para visitar essa região da Venezuela, fui conferir. A apenas uma hora de Santa Elena, a cachoeira, batizada como Quebrada de Jaspe, é uma dessas pequenas jóias da natureza que só vendo mesmo para acreditar. Como diz o próprio nome, o riacho corre sobre um leito de jaspe, uma pedra semi-preciosa. A água, ao escorrer por essas pedras durante milhares de anos, poliu a rocha, colocando o jaspe luzidio à mostra. E não apenas jaspe vermelho, havia também partes amarelas e alaranjadas. Os indígenas pemón chamam o local de Kako Parú (“pedra de fogo” em seu idioma) e consideram o lugar sagrado.

Cachoeira é o que não falta na Grande Savana. Em algumas dezenas de quilômetros (e sem precisar sair muito da estrada asfaltada) várias cascatas obrigaram-me a queimar rolos e rolos de filmes. Um festival de cachoeiras – com ou sem piscina, rodeadas ou não de mata, diversas alturas e diferentes formas – e todas com água cristalina.

Essas cachoeiras e a Quebrada de Jaspe estão situadas dentro do Parque Nacional Canaima, uma área natural de três milhões de hectares – 30.000 km2, maior do que o Estado de Alagoas. Também dentro do limite do parque encontra-se o Monte Roraima.

Se você é bom em geografia, você deve se lembrar que o Monte Roraima é um dos pontos mais altos do território brasileiro (o sétimo, com 2.739 m). O topo do Roraima não é um pico; ao contrário, tem a forma de um platô, cercado de abismos por todos os lados. Brasileiros, guianenses e venezuelanos compartilham esse tepui, palavra pemón que designa esse tipo de maciço montanhoso, cônico e achatado. Cada país tem uma fatia do bolo. Cerca de 85% do topo do Monte Roraima está em território da Venezuela, a “proa” ficou com a Guiana e a nossa parte é a menor delas – apenas 5%.

Grupos de japoneses visitam Santa Elena com apenas um intuito: realizar um sobrevôo de helicóptero de duas horas ao redor do Monte Roraima e do tepui vizinho, Kukenan. Como eu não dispunha de seis dias para escalar o Roraima, dei uma de japonês. E valeu a pena. O vôo, ao amanhecer, com o sol despontando e o constante movimento de nuvens no topo das montanhas, foi um dos momentos mais espetaculares da minha viagem.

Segundo os geólogos, essa terra dos tepuis é uma das mais antigas do planeta, anterior ao supercontinente chamado Pangea. Durante os últimos dois bilhões de anos, esse planalto, parte do Escudo Guianense, sofreu o constante impacto da chuva e do vento. Hoje, resultado dessa erosão, só sobraram os tepuis de topos achatados. A água lavou tanto essas pedras que já não existem sedimentos ou terra solta. Por isso, a água que desce dos tepuis sempre vem transparente. Algumas vezes, com uma cor avermelhada de conhaque ou amaretto, devido ao tanino das folhas que tingem a água.

Para um viajólogo, uma visita ao parque Canaima não estaria completa sem poder ver o Salto Angel, a maior queda d’água do mundo, com 979 metros de altura. Como a cascata está situada do lado ocidental do parque, bem longe da estrada que corta a Grande Savana, a única maneira sensata de chegar lá é por avião. Antes de aterrizar no vilarejo, também chamado Canaima, os pilotos tratam de sobrevoar o cânion formado entre os tepuis, passando bem perto do salto. Os anjos têm que estar ao seu favor, pois o movimento das nuvens é intenso e nem sempre o salto está descoberto. Outra opção é fazer uma viagem de canoa por rio e chegar até ao pé desse abismo. Olhar para cima e ver um paredão de um quilômetro de altura dá aquele arrepio gostoso de conquista de viagem.

Como o Salto Angel é um dos 150 Lances de Viajologia, consegui, com essa minha visita a Canaima, alguns pontinhos adicionais no meu currículo de Viajologia. Antes de colocar o pé na estrada, faça seu teste e saiba que diploma você tem na arte de viajar.

(publicado em VIAGEM E TURISMO em fevereiro de 2005)

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