Um Dia em Dominica

fevereiro, 2007

Oito horas em busca de cachoeiras e fumarolas

Ainda não estou convencido que minha fantasia de conhecer todos os países do mundo é realista ou até mesmo viável. Certamente essa proeza não me fará entrar no livro de recordes mundiais do Guinness, uma vez que a categoria “pessoa mais viajada” foi abolida no século passado.

Talvez essa ilusão seja apenas fruto de um bizarro delírio ou de algum trauma de infância, quando meu pai incluiu Andarahy como um dos meus sobrenomes. Mas a verdade é que andar-por-aí faz parte da minha sina e, quanto mais viajo, mais vontade tenho de percorrer esse mundo.

No início do ano, tempo de decisões e de votos renovados, resolvi fazer as contas para avaliar se era realmente possível, ainda nessa reencarnação, fechar os 222 países e territórios existentes hoje no planeta. Para mim, faltam uns 90 e ter realizado 60% da meta me dá alguma esperança. Durante uma década de viagens intensas, eu poderia cumprir a promessa à Omega Megog, divindade da Viajologia.

Mas para encontrar hoje um “país novo” não é brinquedo, não. As nações óbvias já foram visitadas várias vezes e somente pequenas ilhas ou países distantes sobram na lista. Por isso, quando surgiu a possibilidade de uma viagem ao Caribe, minha prioridade passou a ser conhecer uma das quatro nações ainda não visitadas. Mesmo se por apenas um dia.

A escolha recaiu em Dominica, uma ilha independente da Coroa Britânica desde 1978, com apenas 70 mil habitantes. Possui, como a maioria das outras ilhas caribenhas, uma área bem modesta: seus 754 km2 representam apenas a metade do município de São Paulo.

Dominica conta com o maior numero de vulcões ativos na região. Enquanto algumas das ilhas das Antilhas abrigam um único vulcão, Dominica congrega nove. Entretanto, desde 1493, quando Cristóvão Colombo ancorou numa enseada, num domingo ensolarado (daí vem o nome da ilha), não se tem conhecimento de nenhuma erupção. Isso não significa que não exista atividade vulcânica – e um dos meus objetivos durante as oito horas em terra era precisamente observar algum desses vestígios.

RoseauAo desembarcar no porto da capital Roseau, contatei imediatamente a Sra. Casemira, proprietária de uma garagem, que confirmou ter um jipe a minha espera. Quando nos encontramos e mencionei que eu pretendia visitar Boiling Lake, a bem nutrida caribenha deu uma forte gargalhada, me deixando abobalhado por um instante. “Você pretende ir correndo pela trilha até chegar ao lago?” perguntou ela, fazendo troça do meu programa inicial. “Você precisaria de quatro horas a pé para alcançar ao lago e mais quatro para regressar. Se você pensa passar apenas um dia na nossa ilha, aconselho que você visite outros lugares”, concluiu, não deixando margem a nenhuma negociação.

Conformado que o lago de águas sulfurosas ferventes (com uma temperatura média de 88 graus C) ficaria para uma próxima visita, abri o mapa e pedi a Casemira que marcasse alguns de seus lugares prediletos. Ela foi direto ao centro da ilha e sublinhou Emerald Pool, a Piscina Esmeralda. “Como estarei indo naquela direção, aconselho que você me siga. Não temos muitas placas de sinalização nas nossas estradas”, disse ela sorrindo, deixando entender que eu dificilmente encontraria a cachoeira sozinho.

Concordei com Casemira quando ela, a minha frente, começou a subir uma rua estreita, cheia de meandros e de forquilhas. Não havia nenhuma placa. Confirmei que é sempre bom seguir as dicas dos habitantes locais para ganhar tempo.

A cachoeira que buscávamos estava localizada dentro do Parque Nacional Morne Trois Pitons – montanha dos três picos, em francês. A formação vulcânica é a segunda mais alta do país, chegando a quase 1.400 metros de altitude. O parque, estabelecido pelo parlamento em 1975, foi reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial em1997.

À medida que subíamos a encosta, a vegetação tropical se mostrava cada vez mais exuberante. As férteis terras vulcânicas e a abundante chuva conferem à Dominica o título de “Ilha-Natureza”. Pude constatar a imensa diversidade de plantas ao chegar à trilha que nos levaria à piscina natural. Bromélias, samambaias e epífitas davam um gostinho de Mata Atlântica – mas o que não temos nas nossas cachoeiras brasileiras é uma água tão turquesa como a da Piscina Esmeralda.

EsmeraldaApós um mergulho rejuvenescedor e com o relógio mostrando que eu só tinha cinco horas pela frente, tomei o rumo sul, em busca de uma fonte sulfurosa. Casemira tinha me dito que a sete quilômetros de Roseau, no vilarejo de Soufrière, eu poderia encontrar uma nascente de águas quentes.

Soufrière significa em francês “lugar de enxofre”. O nome é comum no Caribe, pois designa dois vilarejos (um em Saint Lucia e outro em Dominica) e três vulcões (em Montserrat, Saint Vincent e Guadalupe). A erupção do Soufrière de Montserrat provocou, a partir de 1995, grandes estragos na pequena ilha britânica. A capital Plymouth foi abandonada e metade do território não pode ser habitado ainda por uma década.

O vilarejo Soufrière de Dominica é bem mais ameno e pitoresco. Seguindo um estreito caminho encosta acima, descobri a fonte termal e mais uma piscina. Pedi licença aos banhistas – um grupo de senhoras negras e seus filhotes espevitados – para avaliar a temperatura da água. Estava quentinha, como se fosse a de uma banheira. Mas a cor da água e seu cheiro de enxofre não tinham nada em comum com a Piscina Esmeralda. Apesar dos simpáticos convites para entrar no jacuzzi natural, preferi não atrapalhar a reunião de família.

Segui o riacho de água sulfurosa que desembocaria obrigatoriamente no mar. Os rastros alaranjados e ocres deixados pelo enxofre confirmavam a direção. Cheguei finalmente a uma enseada e a uma praia de pedras roliças. A água quente e turva se misturava delicadamente com a água cristalina salgada, criando mais uma surpresa da natureza de Dominica: uma piscina morna de água do mar.

Mas o tempo continuava a passar e faltavam menos de três horas para encerrar minha visita. Seguindo dicas de jovens de Soufrière, continuei até a praia Champanhe, dois quilômetros ao norte. Como a maior parte do litoral de Dominica, esta praia também era de pedras redondas e achatadas. Na verdade, o visitante em busca de praias de areia branca nem deve pensar em Dominica como destino, uma vez que as poucas areias encontradas são de origem vulcânica, negras ou acinzentadas.

Entendi o nome da praia quando vi a garotada local com máscaras de mergulho. Não eram apenas peixinhos coloridos que eles espreitavam, porém mais um fenômeno natural. Dentro da água translúcida, centenas de minúsculas fumarolas soltavam constantes bolhas. Estávamos envolvidos por borbulhas cintilantes, como se fossem de mercúrio. Nos sentíamos, literalmente, numa piscina de champanhe.

Embora a curtição valesse toda uma tarde e até mesmo uma noite – dizem que mergulhar na praia Champanhe em noite de lua cheia é uma experiência inesquecível – resolvi aproveitar o final do dia para alcançar Scotts Head, na ponta sul da ilha, onde o Atlântico agitado se encontra com o pacato Caribe.

Scott's head Cheguei na hora certa. Um grupo de pescadores concluía um arrastão e a movimentação era intensa na beira do mar. Dezenas de pessoas – homens, mulheres e crianças – ajudavam a puxar as duas pontas da rede. Jovens com máscaras de mergulho asseguravam que a rede de pesca não ficasse presa nas rochas do fundo. Um pescador experiente dava orientações de dentro de sua canoa.

William Adams, um velho marinheiro do vilarejo, explicou que todos que participavam do arrastão levavam algum peixe para casa. “Metade da pesca é compartida com aqueles que puxam a rede. O que sobra é dividido entre o dono da rede e os que trabalham para ele”, esclareceu Adams. “Se o resultado for bom, ninguém sai de estômago vazio”. Fiquei até o final para matar a curiosidade e comprovar que o resultado – mais de 50 quilos de peixe – havia sido satisfatório.

O sol baixo no horizonte apontava que eu deveria retornar a Roseau. Como a capital alberga casas de madeira multicoloridas, celebrando o charme caribenho, ainda perambulei pelas ruelas do bairro do mercado, puxando conversa aqui e fotografando acolá. Aproveitei a luz do sol até a sua última gota.

Mesmo se fiquei apenas oito horas em Dominica, adorei suas montanhas, enseadas e fenômenos naturais. Entretanto gostei mais ainda do que não encontrei. Contrastando com a maioria dos portos do Caribe, em Roseau não vi cassinos, lojas de diamantes, quiosques de camisetas para turistas e os onipresentes restaurantes fast-food. Espero que a “Ilha-Natureza” continue resguardada dessas invasões por mais uma década e que eu possa retornar algum dia a Dominica para conhecer o lago de águas ferventes.


Publicado na revista PLANETA de fevereiro de 2007

Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia, viaja como foto-jornalista e diretor de documentários. Dominica foi seu 132o. país visitado.

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