Turismo de Responsa
novembro, 2004Se você está lendo esse artigo, temos pelo menos duas paixões em comum: viagem e natureza. Viajar é como o oxigênio de nosso sangue. Nos dá vigor, experimentamos aquela sensação de bem-estar, nosso olhar fica ávido por descobertas. O idioma francês conseguiu expressar melhor essa emoção com a palavra dépaysement, que traduzida literalmente significaria despaisamento, a ação de conhecer outras culturas e estar aberto a novas realidades.
Coloque mais um ingrediente nessa poção mágica da viagem: a natureza – o universo das paisagens grandiosas, do contato com outros seres vivos em seu ambiente natural e das cores intensas e limpas, não plastificadas. Viajar para melhor entender a natureza, uma perfeita combinação para que essa atividade saudável torne-se um vício cada vez mais delicioso – quem sabe, até mesmo uma das principais razões de viver.
Confesso que tenho esse vírus na alma. Não consigo ficar parado no mesmo lugar por muito tempo. Preciso colocar o pé na estrada. Até mesmo encontrei uma atividade profissional que pudesse responder a essa minha necessidade visceral. Como fotógrafo, jornalista ambiental e diretor de documentários, já visitei 125 países. Pode até parecer bastante, mas ainda tenho pela frente 43% de nações e territórios.
Chamo essa seita informal de viajantes de Viajologia, um culto reservado para aqueles que buscam melhor conhecer a arte e a ciência da sagrada Viagem. Na estrada ou no mato aprendi muito mais que nas cadeiras de universidade. Meu diploma legítimo é em Travelology e durante esse longo curso aprendi a apreciar esse planeta maravilhoso e suas riquezas naturais.
Comecei a ser viajólogo em 1970. Muita coisa mudou nessas três décadas e meia. Para melhor e para pior. Acredite, Búzios era mesmo um vilarejo de pescadores, o mercado de artesanato de Otavalo no Equador só continha mercadorias locais e as florestas tropicais sofriam muito menos impacto do que hoje. Também, pudera, na Copa de 70 éramos “90 milhões de brasileiros em ação” e na Copa da Alemanha seremos o dobro. Aconteceu o mesmo pelo mundo afora. Essa população adicional teve que se esparramar, invadindo cidades, áreas rurais e até mesmo aquelas extensões ainda não habitadas pelo ser humano.
O turismo acompanhou essa explosão demográfica. Hoje quase 700 milhões de viagens acontecem a cada ano, um número que pode dobrar em 2020. Essa indústria de viagens e turismo é responsável por 11% do Produto Nacional Bruto de todos os países do planeta e, para muitos deles, representa uma das principais atividades econômicas. É também uma faca de dois gumes.
Qualquer viajante lúcido pode compreender porque e como o turismo de massa pode representar uma ameaça ao meio natural. Um exemplo ilustra esse possível impacto e a delicada interação entre seres humanos e natureza.
Existe na Amazônia peruana e boliviana dezenas de barrancos à beira de rios, chamados collpas, que exibem suas veias abertas de sais minerais. Quase todas as manhãs, dezenas – algumas vezes centenas – de araras e papagaios aterrizam para beliscar um pouco desse barro, que contém ingredientes importantes para sua dieta.
Observar esse comportamento é um espetáculo único que pode ser comparado com a alegria de descobrir pela primeira vez a neve ou o deserto. Porém, as aves só chegam ao barranco, colocando suas coloridas plumas à mostra, quando se sentem seguras da ausência de possíveis predadores. Qualquer barulho ou movimento incomum provocará uma revoada definitiva e os psitacídeos só voltarão no dia seguinte.
Aqueles que organizam visitas às collpas têm consciência que precisam estar do lado das araras se quiserem que sua atividade profissional continue por muitos anos. Sabem que um número maior de visitantes pode comprometer a sua operação, ainda que pudesse trazer maiores lucros a curto prazo. É a partir desse momento que essas pessoas, geralmente nativas, percebem que, conservando a biodiversidade, podem trazer grandes benefícios econômicos, de forma contínua, à sua comunidade.
O verdadeiro turismo de natureza deve ser consciente e responsável, buscando sempre uma sustentabilidade econômica, ambiental, social e cultural. Todos nós devemos cultivar essa prática. Governo, setor privado, comunidades, organizações ambientais e aqueles que têm nas veias essa paixão por viagem e natureza. Como você.
(publicado na Edição Especial de Ecoturismo da revista VIAGEM E TURISMO, novembro de 2004)




