Saint Kitts & Nevis, Paraíso Ameaçado
novembro, 2005Com tantas opções para descobrir novos lugares no Caribe, porque regressar à mesma ilha? Decidi levar a sério o meu curso de Viajologia e não perder essa oportunidade de marcar mais um “país novo” no meu Teste Mundial. Dei uma olhada na lista de ilhas ainda não visitadas e o destino foi escolhido: a Federação de Saint Kitts & Nevis.
Esse país composto de duas ilhas principais atingiu a maturidade no ano passado. Seus 40.000 habitantes vivem em 261 km2. Dá quase seis St Kitts & Nevis dentro do município de São Paulo e basta rodar 50 km para dar uma volta completa na ilha principal. Poucos se dão conta que esse país tem direito a um voto nas Nações Unidas, igualzinho à China.
Comecei a buscar os detalhes singulares do lugar. Na capital Basseterre, uma cidade de 15 mil habitantes, batizada pelos franceses em 1627, as casas não tem números na parede. Ninguém sabe o que é uma calçada, pois a maioria das portas dá diretamente no asfalto. Outro fato alegórico: o país não tem nenhum semáforo, nem mesmo em Basseterre. Rodei a ilha toda e não encontrei nenhum sinal de trânsito!
Como os mega empreendimentos turísticos não chegaram à ilha nos últimos 50 anos, os habitantes de St. Kitts continuaram a plantar cana-de-açúcar. As plantações tomaram espaço e o verde escuro das florestas tropicais foi substituído pelo verde claro e brilhante da cana. Hoje, as planícies e encostas das montanhas vulcânicas estão quase todas cobertas de canaviais.
O problema é que St. Kitts precisava subsidiar tanto a cultura de cana que, na hora de fechar as contas, as autoridades chegaram à conclusão que o esquema, que tem mais de três séculos, já não poderia continuar. Principalmente quando os europeus revogarem as tarifas preferenciais em 2008. Resultado: a última colheita poderá ser a de 2005.
O que fazer com todas essas terras planas e férteis? Essa foi minha pergunta preferida a todos os locais. “Continuar com a cana-de-açúcar, mas com tecnologia mecanizada”, responderam uns. “Plantar verduras, legumes e frutas, produtos mais rentáveis”, disseram outros. “Esquecer a agricultura, plantar apenas grama inglesa e transformar a ilha em um imenso campo de golfe”, anunciaram os que querem atrair o turismo norte-americano e europeu.
Atualmente existe apenas um campo de golfe na ilha e um segundo está em construção. Como não há água suficiente para regar os hectares de grama fofa, usinas de desalinização de água do mar também entram no pacote de investimento. O projeto seria oferecer um campo de golfe diferente para cada dia da semana. Todos com uma bela vista para o mar.
A idéia pode vingar. O hotel Marriott possui seu campo de 18 buracos e um casino. Com menos de três anos de idade, os 630 apartamentos tem tido uma alta taxa de ocupação. O taxista Robert Thomas confessa “sem esse resort, estaríamos perdidos”. Seu primo James passa o dia na praia em frente ao Marriott e por 10 dólares massageia, com babosa natural, os corpos brancos dos estrangeiros que se aventuraram por essa ilha pouco conhecida.
Mas como todo bom turista de massa, são poucos os habitantes da cidadela do Marriott que se arriscam a sair do conforto. Não sabem o que estão perdendo. Tomei a estrada que leva à estreita península no sul da ilha, parando a cada curva para fotografar paisagens encantadoras. No final do circuito, cheguei numa praia totalmente desabitada e de nome difícil – Cockleshell – que me acolheu para um banho de piscina com Netuno, em suas águas turquesas a 30o graus.
Não viajo a um país sem antes verificar a lista dos locais considerados como Patrimônio Mundial da Unesco. Em St. Kitts só existe um, o forte Brimstone. Empoleirado no topo de um morro, essa fortaleza, construída pelas mãos escravas, teve seu primeiro canhão inglês montado em 1690 para acossar os franceses. O forte tem uma estrutura pentagonal impressionante e leva o apelido de Gibraltar do Caribe. Sentei na murada da fortaleza e contemplei o azul do mar. Ao fundo, sob o mormaço, avistei várias outras ilhas.
Foi fácil concluir que St. Kitts está fora do circuito turístico do Caribe. Os poucos cruzeiros só atracam em alta estação e a ilha tem ainda uma aura de paraíso perdido. Para mim foi perfeito: consegui escapar do estresse, terminei dois livros e meditei sobre o que farei nos próximos três anos.
Mas até quando essa paz pode durar? Na busca de novos destinos para a crescente demanda turística, St. Kitts pode ser o próximo alvo. No dia que o primeiro semáforo aparecer em Basseterre saberemos que esse caminho não tem retorno.
publicado na revista PLANETA de novembro de 2005
por Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia e vice-presidente de comunicação da ong Conservação Internacional. St. Kitts & Nevis foi o país 126 visitado pelo fotógrafo, jornalista e diretor de documentários.




