Os dois paraísos de Fiji
agosto, 2006Explorando o que os turistas desconhecem
Quando confirmei minha viagem a Fiji, me imaginei pisando naquele pedacinho de paraíso no meio do Pacífico. Além de comemorar meu 131o país visitado, a idéia de curtir aquelas praias de areia branca e de água cristalina me fazia esquecer que eu precisaria de 32 horas de aviões e aeroportos para chegar lá. Mas eu estava pronto para esse “sacrifício”, principalmente se minha recompensa fosse mergulhar, mesmo se apenas por uma hora, nas águas mornas que rodeiam o arquipélago.
Fiji é composto por mais de 300 ilhas e apenas um terço delas são habitadas. O famoso meridiano de mudança de dia (180 graus) corta o arquipélago. Para evitar uma grande confusão – imagine uma ilha estar vivendo numa data e a outra vizinha estar ainda no dia anterior – a linha deu uma guinada para o leste para acomodar todo o país. Fiji aproveitou sua geografia e durante o frenesi da entrada do terceiro milênio se autopromoveu como o primeiro país a ingressar no ano 2000.
Existem dois aeroportos internacionais na ilha principal de Viti Levu. Todos os turistas (principalmente da Austrália, Japão ou Estados Unidos) chegam em Nadi, uma cidadezinha situada na parte ocidental da ilha. De lá, os bem-aventurados visitantes passam a alguma ilha paradisíaca e, dependendo do cacife de cada, se hospedam em um resort exclusivo.
Eu aterrizei na capital Suva, do outro lado de Viti Levu. Suva não tem nada de turístico e, apesar de estar na beira do mar, não seria ali que eu encontraria minha praia do tipo cartão postal. Todo o litoral perto da capital é composto por mangues ou rochas. Mas, afinal, eu não estava em Fiji de férias e a praia poderia esperar.
O objetivo da viagem era participar de uma oficina de comunicação ambiental e eu passaria os seguintes três dias em um centro de treinamento à uma hora de Suva – bem longe de qualquer praia – trabalhando com 25 fijianos.
Os dias foram intensos e nunca aprendi tanto, em tão pouco tempo, sobre uma cultura e um lugar. O país é composto por dois grandes grupos étnicos: os fijianos – com a mesma origem melanésia que os habitantes de Papua Nova Guiné (Viajologia, Planeta janeiro 2006) – e os indo-fijianos, que chegaram da Índia como trabalhadores braçais há quatro gerações e que hoje perfazem 45% da população.
A propriedade rural é assunto sério em Fiji. O Conselho de Terras Nativas é a única autarquia oficial encabeçada pelo próprio Presidente da República e o Primeiro Ministro. Cerca de 83% das terras pertencem às comunidades indígenas, seguindo um complexo sistema tradicional de divisão entre famílias e clãs. Ou seja, os indo-fijianos, por mais ricos que possam ser, jamais poderão possuir grandes extensões rurais, pois a propriedade comunitária não pode ser vendida.
O tema fundiário foi um dos que mais me interessou, pois é raro encontrar um sistema que defende as comunidades tradicionais, lhes dando poder sobre quase todo território. Mas, se o Estado não é dono da terra, como fazer para estabelecer um parque nacional ou uma reserva natural? A resposta é simples: são os mataqalis (uma espécie de conjunto de clãs proprietário de uma determinada área) que devem decidir, com o aval do Conselho de Terras Nativas.
Viti Levu possui 3.500 anos de história. Durante esse período – e principalmente durante a colônia inglesa, que durou 96 anos até 1970 – a ilha fértil de solo vulcânico foi usada e abusada. Apenas uma pequena parte da ilha ainda está coberta pelas florestas originais. Todo o resto foi substituído por pasto, cana-de-açúcar e até mesmo por plantações de pinheiro e mogno. Por isso, quando biólogos e conservacionistas “encontraram” há algumas décadas uma área virgem nas montanhas, totalmente inabitada e sem estradas de acesso, o desafio passou a ser como evitar que essa região, denominada Bacia de Sovi, tivesse o mesmo destino que o resto da ilha.
“Você precisa visitar Sovi e a maneira mais rápida é de helicóptero”, decidiu Lemeki Lenoa, engenheiro florestal e diretor da ong Conservação Internacional em Fiji. “Somente dessa maneira podemos compreender porque essa região se manteve intacta”.
Adorei a idéia; quem não gosta de passear de helicóptero? Uma vez concluída nossa oficina, pegamos a estrada para Nadi, onde o helicóptero estava baseado. Por alguns dias eu tinha me esquecido das areias brancas, mas estar do outro lado da ilha talvez me permitisse conhecer alguma bela praia.
Uma das descobertas durante o trajeto de Suva a Nadi foi que Viti Levu é muito mais montanhoso do que eu imaginava. Todo o interior da ilha é recoberto por vales e picos. Essas serras possuem um papel fundamental no clima da ilha, pois as nuvens (que sempre vem do leste) esbarram nas montanhas e não chegam até Nadi. Enquanto os turistas nas imediações de Nadi curtem um belo sol, os capitalinos de Suva podem estar debaixo de uma tremenda chuva. Essas mesmas nuvens também são as responsáveis pelas florestas ricas e resplandecentes que ainda existem nas montanhas.
Mas nuvem para piloto de helicóptero é sinônimo de problema. Nem pensar em furar uma delas, principalmente numa região montanhosa. E nosso sobrevôo foi adiado algumas vezes, pois o clima estava instável e nublado.
Finalmente, na véspera de minha partida de Fiji, o céu amanheceu totalmente limpo. Era minha última chance e as poucas nuvens no topo das montanhas não assustaram o piloto. Levantamos vôo e partimos em direção ao maciço.
Lemeki decidiu que, para encontrar com facilidade a Bacia de Sovi, deveríamos seguir o rio que nos levaria aos vilarejos que estão perto da floresta. À medida que nos aproximávamos do destino, as nuvens pareciam brincar mais com o piloto, fechando nosso passo e nos obrigando a dar grandes voltas. Após considerarmos que poderíamos até mesmo ser obrigados a dar uma frustrante meia-volta, uma brecha finalmente permitiu uma investida mais ousada e avistamos Nadakuni.
Lemeki tinha me falado sobre Nadakuni, um dos seis vilarejos donos de Sovi. O mataqali de Waibasaga, baseado inteiramente em Nadakuni, é aquele que possui a maior proporção de terras. Cerca de 45% da Bacia de Sovi pertence a esse clã. Nas discussões para estabelecer a reserva, o chefe de Nadakuni sabia que estava com a faca e a manteiga na mão. Ratu Masi Roraveli negociou para o mataqali essa mesma proporção do valor total do “aluguel” das terras e da “compensação” pela concessão madeireira que foi cancelada em 2004. Assim, uma vez assinado o contrato, o mataqali Waibasaga receberá por ano, durante os próximos 99 anos, a quantia de 45.000 dólares Fiji (65.000 reais) que deverão ser investidos em projetos sociais. Roraveli esteve até mesmo no Brasil, onde participou em março da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP-8) como representante das ilhas do Pacífico.
Logo após passarmos por Nadakuni, seguimos o rio Sovi. Do helicóptero – sem porta naturalmente – podíamos observar como a água esverdeada do rio era cristalina. O piloto, mais preocupado com as montanhas que nos rodeavam, apontou para uma enorme garganta à nossa frente. Ali estava a explicação geológica da conservação da área: a dificuldade de acesso. Para entrar na Bacia de Sovi era preciso cruzar essa garganta. De cima, como um pássaro, parecia fácil. Mas Lemeki contou que o percurso de Nadakuni até a entrada da bacia, que havia durado apenas cinco minutos de helicóptero, levava pelo menos cinco horas pela trilha da beira do rio.
Pedi que o piloto subisse um pouco mais para melhor compreender a paisagem. De fato, só havia uma única entrada para essa bacia circular de 20.700 hectares – cerca de 200 km2 – semelhante a uma antiga cratera de um vulcão. Toda a área estava rodeada por altas montanhas, como que protegendo o lugar. Não havia nenhuma manifestação de impacto humano e toda a floresta era virgem.
Logo depois de sobrevoarmos a garganta de entrada a esse pequeno Shangri-La, encontramos os dois riachos que formam o rio Sovi. Continuamos o sobrevôo evitando as nuvens baixas e buscando as manchas de sol sobre a floresta para um melhor efeito fotográfico. Com o sol nas nossas costas e uma nuvem de chuva à frente, tivemos a sorte de observar, por poucos segundos, um inesperado arco-íris unindo o verde do mato e o branco das nuvens.
O piloto apontou para os instrumentos nos avisando que não poderíamos nos demorar, pois já havíamos ultrapassado a metade do tempo de vôo previsto. E precisávamos de combustível para retornar a Nadi. Dobrei o número de cliques fotográficos, aproveitando a proximidade das montanhas. Passamos pela garganta novamente e deixamos Sovi para trás.
Voltamos a sobrevoar plantações e pastagens. Contrastando com o resto da vegetação de Fiji, a Bacia de Sovi é a jóia natural de Viti Levu. O verdadeiro paraíso terrestre não estava no litoral, como eu pensara antes, mas sim nesse pedacinho de floresta defendido por montanhas. Graças à parceria criada por conservacionistas e comunidades tradicionais, sua proteção estará assegurada durante todo o século 21.
Essas eram minhas últimas horas em Fiji e eu já sabia, nessa altura do dia, que não teria tempo de conhecer nenhuma praia e muito menos colocar os pés dentro d’água. Estava conformado, uma vez que o vôo sobre Sovi havia sido magnífico. Porém, o piloto, que já havia tomado conhecimento da minha obsessão de conhecer e fotografar praias deslumbrantes, resolveu então fazer uma surpresa de última hora. A apenas quatro minutos do aeroporto de Nadi, a minúscula ilha Malamala poderia servir como uma bela amostra de paraíso costeiro. Antes de pousar, o piloto deu uma volta completa sobre a ilha cercada por um radiante anel de areia branca e corais. Era o típico cartão postal de Fiji!
No final do vôo Lemeki concluiu: “agora você tem uma boa razão para regressar a Fiji”.
Pensei, obviamente, que ele se referia às “minhas” praias paradisíacas. “Nada de praias”, esclareceu, “na sua próxima visita iremos explorar a Bacia de Sovi... a pé”.
Publicado na revista PLANETA de agosto de 2006
por Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia e vice-presidente de comunicação da ong Conservação Internacional. Haroldo viaja como fotojornalista e diretor de documentários. Em Fiji, seu 131o país, ele visitou apenas a ilha Viti Levu, mas promete retornar.




