Omega Megog: Nascimento de uma Divindade

Omega Megog: Nascimento de uma Divindade

abril, 2005

Omega megogViajar é uma delícia. Mas quando a bruxa está solta, sua viagem pode se transformar em pesadelo.

Com meio milhão de milhas voadas sem grandes transtornos nos últimos 24 meses, as possibilidades de que a bruxa pudesse me pegar desprevenido estavam crescendo a cada vôo. Consegui resolver algumas situações confusas, mas numa tarde de sexta-feira ela finalmente deu seu bote.

Para fugir do frio de Washington, Flavia e eu decidimos tirar duas semanas de férias de verão no Brasil, no litoral cearense e no sul da Bahia.

Corta para um cenário familiar para qualquer paulistano. Estamos na marginal, tentando ir para Guarulhos. Fim de tarde, trânsito seriamente congestionado e chuva forte. Mesmo tendo saído com mais de três horas de folga, os minutos passam como segundos. Os acidentes se multiplicam e em meia hora rodamos um quilômetro. Nessa velocidade, chegaremos no aeroporto às 2 da madrugada.

As férias de sonho parecem ruir. Se não conseguirmos embarcar naquele vôo para Fortaleza, o efeito dominó negativo será funesto: todos os vôos nos próximos três dias estão lotados. Só um milagre pode resolver essa crise. Mas quem vai fazer esse milagre? Qual é o santo ou o gênio da Viajologia?

“Precisamos da ajuda de uma divindade”, proclamo, com a cara vermelha, iluminada por todas as luzes de freio dos carros em frente. “E temos que criá-la agora!” Tomado por essa divindade que estava prestes a nascer, penso em voz alta. “Se vamos conceber uma força, uma energia protetora, ela precisa ser multi-cultural para poder atuar em todos os continentes, em todo o planeta.”

Flavia, já habituada com minhas loucuras e disparates, aceita o argumento e procura uma folha de papel e uma caneta. Continuo: “Garuda é a ave mística do hinduísmo e, como é o nome da companhia aérea da Indonésia, Garuda vai nos ajudar com os aviões. Já temos a Ásia representada.” O caminhão ao meu lado desloca-se alguns metros.

“Para a Europa”, clamo como se estivesse em um anfiteatro, “é Mercúrio, o mensageiro dos deuses dos romanos. Na astrologia, representa o movimento – aliás, justamente o que precisamos agora.” No mesmo instante, a faixa da direita, aonde nos encontramos, começa a se mover.

Depois de escrever os nomes no papel, Flavia interrompe. “Necessitamos de alguma divindade que abra os caminhos e que goste de aventuras. Ogum tem que estar presente nessa sua salada, Haroldo.” Concordo. Como Ogum tem um pé na África e outro nas Américas, fechamos os quatro continentes principais.

“Agora escolheremos as duas primeiras letras de cada palavra para compor um novo nome, Ga-Me-Og.” Flavia escreve todas as possibilidades no papel, já com um pouco de dificuldade pois o carro movimenta-se, embora bem devagar. “Oggame, Gogme, Meoga, Gaome...” São nomes complicados mas o transito melhora e consigo passar a segunda marcha.

Depois de ouvir os dez nomes da lista, surgem dois fortes candidatos, Megog e Omega. “Haroldo, precisamos pegar esse avião, escolhe logo um dos dois nomes.” Sem pensar muito, anuncio: “Escolho ambos – esse deus precisa ter nome e sobrenome. Será Omega Megog.”

Coincidência ou não, no mesmo instante que essas duas palavras mágicas são proferidas juntas, o engarrafamento desaparece, como se as águas do Mar Vermelho se abrissem à nossa frente. Passo terceira, quarta e quinta e voamos em direção ao terminal, sob a escolta de nosso idolatrado-salve-salve Omega Megog. Com apenas segundos de vida, Omega Megog resolvera o primeiro desafio, abrindo nosso caminho.

Faltam apenas 20 minutos para o vôo decolar quando chegamos no check-in. Mostro todos os cartões VIP, de todas as cores, mas a resposta é irredutível. “O vôo está sobrevendido e está fechado”, disse a mocinha de vermelho com gel no cabelo. Fecho os olhos e reflito: “Omega Megog, como podes me abandonar, logo agora?”

A mocinha interrompe minha meditação “Mas temos um vôo extra daqui a 30 minutos. Também está lotado, mas vou colocá-los na lista de espera, números 8 e 9. Não posso prometer nada.”

Volto a me conectar com Omega Megog. São 15 minutos de tormento.

No final, apenas três passageiros da lista de espera são chamados. Por alguma razão estranha, somos o segundo e o terceiro da lista – e não oitavo ou nono. Embarcamos e até mesmo nossas malas chegam. Milagre, charme ou sorte? Prefiro não explicar. Para todos efeitos, Omega Megog venceu a parada contra a bruxa.

(publicado em VIAGEM E TURISMO em abril de 2005)

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