Nuvens de Esperança na Serra da Mantiqueira

dezembro, 2006

As pedras protegidas de Itatiaia e da Mitra do Bispo

Minha viagem para filmar a Serra da Mantiqueira, em outubro passado, representou uma guinada na minha vida, pois foi a última filmagem que realizei para a Conservação Internacional. Ela teve um gosto doce de alívio, misturado ao sabor amargo de separação brusca, porém imperativa.

Os elementos naturais pareciam acompanhar minhas emoções. Nuvens escuras, chuvas intermitentes e um frio desagradável estavam de conivência com os desafios que eu vivia internamente. Um raio de sol fortuito – como uma brecha acidental aberta por alguma nuvem de esperança – era sempre motivo para um clique fotográfico.

Eu nunca havia visitado o Parque Nacional do Itatiaia, o primeiro a ser criado no Brasil. Havia ouvido muitas estórias, inclusive do meu próprio pai, Armando de Faria Castro. Ele dizia que havia feito parte da comissão que estabelecera o parque em 1937. Confirmava o fato com uma velha foto preto-e-branco, que mostrava o Presidente Getulio Vargas com ele e outros senhores usando chapéus, ternos escuros e gravatas finas, passeando por uma alameda cheia de hortências. O retrato deve ter sido captado no próprio parque, na sua parte baixa, perto de Resende.

Meu interesse era conhecer de perto o Pico das Agulhas Negras e o Maciço dasPrateleiras Prateleiras. Para isso, precisávamos dar uma volta grande, passar por três estados (RJ, SP e MG) e entrar no Parque do Itatiaia pela sua “parte alta”.

Já era noite quando saímos da via Dutra e pegamos a estrada para Itamonte, MG, em busca da Pousada dos Lobos. Perguntei aos guardas da guarita de fiscalização da Garganta do Registro como eu deveria fazer para chegar à pousada. Eles riram de minha ingenuidade. “Com esse carro baixo, você não chega lá, não. São 12 km de estrada de terra, com muitos buracos”, disse um deles. “Se dirigir com cuidado, quem sabe… Mas vai demorar umas três horas, vocês vão chegar à meia noite. E muito cuidado com as pedras”, expôs o mais esperançoso.

Os primeiros 8 km faziam parte da estrada de acesso ao parque. Antigamente – muito antigamente mesmo – a estrada era asfaltada. Ainda era possível encontrar trechos de 50 ou 100 metros com uma capa macia de pavimentação. Os amortecedores do carro agradeciam esse refresco momentâneo. Mas, à medida que a estrada subia, o tamanho dos buracos e das pedras também aumentava.

Dirigi com atenção e demorei uma hora para chegar até a encruzilhada onde vi a placa da pousada. Os restantes 4 km, embora em descida estonteante, foram mais fáceis. A estrada estava ladrilhada de paralelepípedos pois era utilizada por caminhões de madeireiros. Graças à industria do desmatamento da Mata Atlântica, conseguimos chegar à pousada, sãos e salvos e com o carro ainda funcionando.

Na manhã seguinte, subimos a ladeira para reencontrar a estrada do parque. Era uma segunda-feira e cruzamos dois caminhões vazios. Em poucas horas eles subiriam a mesma rampa, trazendo toras de araucárias, cortadas legal ou ilegalmente. Sempre me impressionava o fato que os madeireiros conseguem chegar aos pontos mais remotos desse planeta, em busca dos últimos recursos naturais.

florNa guarita do parque, depois de percorrer 5 km infernais, fomos recebidos por Leandro Pinto, que propôs uma caminhada até o Maciço das Prateleiras. Ameaçava chover e precisávamos dar início às filmagens imediatamente. “Mas antes, venham conhecer o Flamenguinho”, nos recomendou Leandro com entusiasmo. O Flamenguinho é uma minúscula perereca de três centímetros. Obviamente, seu corpo é preto e suas patas vermelhas. “É uma espécie endêmica. Só existe nessa região da Mata Atlântica”, concluiu.

Conseguimos usar o carro por apenas mais um quilômetro, até o abrigo Rebouças. “Depois disso, nem tanque de guerra”, riu Leandro. “Há alguns anos, uma enxurrada levou embora a estrada.” Compreendi melhor a alegoria do tanque quando precisei escolher meu caminho entre buracos, poças de água, lama e restos mortais de placas de asfalto.

Mesmo com nuvens baixas e cerração, o Pico das Agulhas Negras apareceu de forma extasiante. Com 2.792 metros acima do nível do mar, é a quinta montanha mais alta no Brasil. Como caminhávamos a 2.500 metros de altitude, parecíamos estar bem pertinho dessas pedras com gigantescas fendas verticais. Toda a paisagem ao nosso redor formava o Planalto do Itatiaia e era composta de campos de altitudes, com espécies vegetais bem diferentes das que habitam a Mata Atlântica tropical. Um vento cortante recordava que estávamos em um outro mundo.

Ao nos aproximarmos da base das Prateleiras, nossa trilha de terra virou caminho pelas pedras. Era preciso saltar, subir escadas naturais e ser criativo para encontrar o caminho mais seguro – nem sempre o mais curto. Depois de uma mini-escalada, recebemos enfim nossa recompensa: do topo de uma rocha avistávamos, lá embaixo, um oceano de nuvens brancas que encobria todo o Vale do Paraíba. Montanhas escuras da Serra da Mantiqueira conseguiam romper o manto de algodão. Alguns cerros mais humildes apareciam apenas como ilhas nesse mar de névoa. A imagem lá de cima era mística, como se fizesse parte de uma paisagem do filme Senhor dos Anéis. Mas o eco amedrontador de um trovão nos fez rapidamente cair na real. Era preciso retornar e viajar até Caxambu, ainda aquela tarde, para que a etapa do dia seguinte pudesse ser realizada.

vista itatiaia

Carlos e Lucia Simas conhecem profundamente o encanto da Serra da Mantiqueira. Trocaram as praias do Rio de Janeiro por essas terras distantes, incrustadas no meio das montanhas mineiras, na região de Aiuruoca. Conseguiram montar uma casa, criar cinco filhos e estabelecer uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Durante dez anos viveram isolados do mundo, convencendo amigos e parentes que a sua RPPN Mitra do Bispo, no município de Bocaina de Minas, MG, merecia ser preservada e que seus aliados deveriam comprar terras ao redor das suas.

Como no Brasil a maioria das áreas bem conservadas está nas mãos de particulares, as RPPNs representam uma forma criativa de aumentar o número de áreas de conservação. Em 1996, o IBAMA regulamentou as RPPNs e centenas de proprietários passaram a procurar a instituição federal. Apesar de não perder o direito de propriedade, os donos das RPPNs se comprometem a conservá-las para sempre. Mesmo se a propriedade for vendida, os novos donos devem respeitar a área protegida, pois a decisão é irrevogável.

MitraCarlos Simas teve sua RPPN oficializada em 1999. “Nossas terras estarão protegidas por décadas, talvez séculos. Isso dá um sentido de permanência e continuidade. Bom saber que meus netos e bisnetos terão que cuidar de árvores que ainda nem nasceram”.

Chegar na RPPN Mitra do Bispo não é para qualquer viajante. Tivemos que recorrer a uma Rural Wyllis de Aiuruoca para atacar o caminho de terra, pois meu automóvel urbanóide não daria conta dessa tarefa. Somente com tração e marcha reduzida podíamos vencer os 24 km de subidas íngremes, curvas tortuosas e pontes cambaleantes. Pedro Guatimosin, de 21 anos, bem mais jovem que sua Rural ano 73, trabalhava como guia de ecoturismo. Ele tinha ouvido falar da Mitra, mas não havia visitado ainda o local. “O desconto no aluguel do carro é porque vou aproveitar para conhecer outros visuais”, confessou Pedro. Depois, ele quase que se arrependeu. Os 24 km foram cobertos em três horas.

No dia seguinte, partimos para a derradeira aventura: escalar a pedra da Mitra do Bispo. Tínhamos pela frente uma bela subida, com um desnível de mais de 500 metros: sairíamos de 1.600 e chegaríamos a quase 2.200 metros de altitude.

Demoramos para passar por um pequeno trecho da trilha apelidada de “Corredor das Bromélias” Bromeliaspela família Simas. A cada dois metros, uma bromélia em flor nos esperava para uma foto ou uma estória. Listamos quase uma dezena de espécies diferentes. “Ainda bem que as orquídeas não estão floridas, porque, a esse passo, nunca chegaríamos no topo da Mitra”, riu Carlos.

A floresta tropical cedeu espaço à um bosque mais baixo e mais aberto. A camada de terra fértil era cada vez mais escassa e fina. Finalmente, chegamos na rocha viva, granito puro. Já não tínhamos árvores e galhos para usar como apoio. A leve caminhada tornou-se subida íngreme, a quatro patas. Os escorregões seriam mais perigosos. O consumo de água dobrou, triplicou. O topo parecia estar cada vez longe.

Quando eu já pensava em desistir, um suave raio de sol me fêz recobrar forças para a escalada final. Enquanto eu retomava meu fôlego, Carlos admirava sua paisagem preferida. Do alto da Mitra, ele contemplava a RPPN, a Serra do Papagaio e o perfil ondulado das montanhas da Serra da Mantiqueira. “Isso aqui é um paraíso. Pena que você tenha que voltar para Washington”. Concordei com ele e me entreguei ao visual. Algo me dizia que aquela imagem do alto da Mitra do Bispo seria a última a ser gravada para a Conservação Internacional. E foi.

publicado na revista PLANETA de dezembro de 2006

por Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia, visitou 131 países, como fotógrafo, jornalista e diretor de documentários.

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