Nova Zelândia: Viagem ao país dos Kiwis

Nova Zelândia: Viagem ao país dos Kiwis

abril, 2006

A luta para salvar espécies raras, ameaçadas pelos invasores

A palavra kiwi possui três significados. Você já deve ter ouvido falar de um deles, aquela fruta que parece uma batata cabeluda por fora e é verde esmeralda por dentro. A fruta, originária da China, pediu o nome emprestado ao pássaro kiwi, um dos animais mais inusitados da Nova Zelândia. O pássaro é símbolo nacional do país e os neozelandeses escolheram esse mesmo nome como apelido para eles próprios.

A história dos kiwis está, intimamente, relacionada com a evolução das ilhas que, hoje, levam o nome de Nova Zelândia ou Aotearoa, em linguagem nativa maori. Essas terras se separaram da Austrália e do supercontinente Gondwana a 80 milhões de anos, não trazendo consigo nenhum mamífero terrestre ou serpente. Os pássaros de Aotearoa seguiram uma trajetória evolutiva totalmente singular.

Dos países e territórios que estavam na minha lista para serem visitados com urgência, Nova Zelândia era uma das mais altas prioridades; principalmente por ser um hotspot de biodiversidade – uma área crítica para a conservação, tema do meu quotidiano profissional. A oportunidade para preencher essa lacuna no meu currículo de Viajologia surgiu quando fui convidado para filmar os pássaros endêmicos mais importantes do país, incluindo o kiwi.

Apesar de seus 20 anos de idade, o estudante de ornitologia, John Mittermeier, tem um olho de águia para encontrar pássaros. Seu pai, Russell, presidente da ong Conservação Internacional, gaba-se como uma coruja: “ele já observou mais de 4.000 aves na natureza”. O filho é mais humilde e responde “apenas 3.500 e pouco” – um número mesmo assim considerável, pois o universo é de cerca de 9.800 aves identificadas. A lista de espécies a serem observadas na viagem parecia uma salada onomatopéica: kakapo, kokako, kaka, kea, weka e takahe.

O takahe é uma estória de sucesso de conservação. Até 1948, acreditava-se que o animal estivesse extinto na natureza. Naquele ano, alguns pares foram re-encontrados nas montanhas Murchison, em Fiordland. Entretanto, na mesma época, foram introduzidos veados na região que começaram a competir pelo mesmo alimento, tornando-se a ameaça mais séria para o takahe. O Departamento de Conservação (DoC, sigla em inglês) conseguiu controlar os veados e hoje cerca de 130 pássaros vivem em Fiordland e outros 70 no resto do país.

Apesar da garoa, decidimos visitar os takahes. Subimos a encosta da colina Burwood com a camionete do DoC. Quando a estrada terminou, apesar da chuvinha ter se transformado em chuva grossa, continuamos a pé pela trilha do morro. No topo, o vento apareceu e, apesar de estarmos em pleno verão austral, o frio também. Mas já não podíamos regressar, pois ver os takahes era mais importante.

Com os pés encharcados e gelados alcançamos a cerca que separa os takahes do mundo das espécies invasoras. Foi também quando a chuva se transformou numa tempestade de granizo. Tudo ficou branco em poucos minutos. A temperatura caiu a quase zero graus. Eu não podia acreditar – para um brasileiro, verão é outra coisa. Um dos integrantes do grupo resvalou numa poça d’água e, para não se espatifar no chão molhado, se segurou na cerca – ela estava eletrificada. Um belo susto.

Depois de tantos imprevistos, conseguimos encontrar os takahes. John Mittermeier estava deslumbrado. “Imagine só, estamos vendo seis pássaros de uma espécie da qual existem apenas 200 indivíduos!” Os cliques fotográficos fizeram que esquecêssemos o frio. As aves de bico vermelho e penas azuis e verdes deram um show. Primeira missão cumprida.

O takahe, o kiwi e vários outros pássaros endêmicos à Nova Zelândia deixaram de voar a alguns milhões de anos. Sem predadores, as aves decidiram que era mais simples buscar comida no solo. E os pássaros, gordos e preguiçosos, se esqueceram que podiam voar.

Quando os seres humanos (primeiro os maoris há 800 anos, depois os europeus) chegaram nessa terra virgem, trouxeram consigo animais domésticos. Ratos, gatos, cachorros e gambás viraram pragas. São as temíveis espécies invasoras. As aves terrestres, impossibilitadas de voar, passaram a ser presa fácil. Os agressores destruíram ninhos, comeram ovos, devoraram filhotes e mataram os adultos. Recentemente um cachorro massacrou cinco kiwis em uma só noite.

A Nova Zelândia é líder em pesquisas e ações contra as espécies invasoras. Uma saída foi separar as aves raras desse mundo hostil, construindo cercas que não permitam a entrada dos vilões. Outra solução foi reservar para as aves endêmicas pequenas ilhas exclusivas, expurgando-as dos predadores.

Depois de observarmos os dois papagaios neozelandeses kaka e kea – essa dupla daria um bom desenho animado – e uma dúzia de espécies só avistadas no país, nosso objetivo final era encontrar o kakapo. John sonhava: “Imagine um papagaio que não voa, que é noturno e que pesa quatro quilos”.

Poucas pessoas têm a oportunidade de ir à ilha Codfish, pois a visitação é restrita. Lá vivem 54 dos 86 kakapos que existem no mundo. Para que a ilha continue livre de pragas, passamos por um minucioso processo de quarentena. Solas de sapatos, bainhas de calças e velcros foram inspecionados. Todas nossas bolsas, caixas e malas foram revisadas para que não levássemos para Codfish sementes estranhas ou até mesmo um camundongo de contrabando. O vôo de helicóptero, liberado pelo DoC, foi realizado em 18 minutos.

Se o granizo me havia atormentado alguns dias atrás, eu estava agora ainda mais preocupado. A chuva continuava já por uma semana, sem parar. Nessa região chove mais de 200 dias por ano. Codfish, ao largo da ilha Stewart, está situada a 46 graus de latitude sul, ou seja, na mesma altura da Patagônia. Pior, não existem terras entre a ilha e a Antártica.

As 31 fêmeas e 23 machos kakapos estão espalhados por Codfish, uma ilha de apenas 1,5 km2. Os pássaros são tão conhecidos pela equipe de pesquisa, que cada um tem seu nome próprio. Mesmo sob chuva, saímos em busca dos kakapos. Como cruzaríamos riachos e subiríamos trilhas na lama, preferi pedir emprestado um par de botas a um dos pesquisadores.

Meia hora mais tarde, me dei conta da burrada que tinha feito. “Nunca caminhe com sapatos que você não conheça”, zombava Russell Mittermeier, lembrando uma regra de viagem. Como se não bastasse o esforço da subida e estar todo molhado de chuva, meus pés me avisavam que duas bolhas estavam prestes a arrebentar. Meu ego de aventureiro estava mais baixo que a temperatura. Eu me sentia um viajólogo novato, um aventureiro de primeira viagem. E toda essa caminhada de cinco horas de sofrimento, para nada. Não encontramos nenhum kakapo. Afinal, eles são noturnos.

À noite, com os pés enfaixados e de volta ao meu par de tênis, saímos em busca do tal do papagaio noturno. “Vamos ver Pura, uma fêmea de dois anos de idade. Cem por cento garantido que a encontraremos”, disse confiante Paul Jansen, responsável no DoC pelo programa de proteção da espécie.

De fato, Pura estava ali no chão, aonde Paul havia previsto, como se esperando pelo grupo. John não podia acreditar. “Com essas plumas suaves, parece mais uma coruja. Ou até mesmo um pássaro pré-histórico. É realmente um animal grande e gordo”. Por um momento, concentrado em seguir, com a câmera, o kakapo pelo chão da floresta, parei de pensar nos azares do dia e me dei conta do quanto eu era privilegiado de estar frente a frente a uma espécie raríssima, criticamente ameaçada de extinção. “Só existem 86 pássaros como este no mundo”, repeti para mim mesmo.

Embora a Nova Zelândia conte com uma longa lista de animais já extintos – em particular o moa, uma ave gigante de três metros de altura pesando 250 kg que desapareceu há cinco séculos – o país se orgulha de ser extremamente dedicado à proteção da biodiversidade. De fato, é a única nação que possui, além de um Ministério do Meio Ambiente, um segundo ministério dedicado exclusivamente à conservação.

No final da viagem, encontramos o ministro da Conservação Chris Carter, que busca unir crescimento econômico com a proteção da natureza. “O turismo é hoje o setor mais forte de nossa economia, a maior fonte de divisas. Milhões de turistas vem ao país atraídos pelas paisagens de nossos parques nacionais”, afirmou Carter, explicando também que a Nova Zelândia investe por ano cerca de 300 milhões de dólares neozelandeses (500 milhões de reais) em conservação. “A conservação da biodiversidade é um bom negócio”, concluiu o ministro.

Pode fazer um tremendo frio na Nova Zelândia, mas os kiwis estão fazendo um belo trabalho!

Publicado na revista PLANETA de abril de 2006
Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia e vice-presidente de comunicação da ong Conservação Internacional, viajou à Nova Zelândia pela primeira vez nesse ano e está envergonhado de ter demorado tanto tempo para ter visitado o país dos kiwis – o de número 129 na sua lista.

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