Madagascar: Um grito de esperança para o Indri

setembro, 2006

Uma associação de guias turísticos promove a conservação de lêmures

Bedo tinha muitas habilidades: era extrovertido e habilidoso com os estrangeiros, aprendia idiomas com facilidade e conhecia tudo sobre os lêmures de sua região. Qualquer visitante que chegasse à Reserva Especial Indri em Andasibe nos anos 80 o procurava para que ele pudesse ser seu guia na floresta. Sempre encontrava os animais, mesmo quando escondidos no meio do mato, e clamava por mais proteção para a reserva.

A fama de Bedo – e seu sucesso financeiro, uma vez que os estrangeiros pagavam bem por seu serviço – lhe custou a vida. Em 1989, quatro habitantes de Andasibe saíram embriagados do bar da estação ferroviária e o encontraram sozinho. “Eles atacaram meu irmão, pois tinham muita inveja dele”, conta Maurice Ratsisakanana. “Bedo ficou desacordado com as pancadas recebidas na cabeça e os bandidos jogaram o corpo no rio”. O jovem guia, que tinha tudo para sair da pobreza e ser um líder na sua comunidade, morreu afogado.

Não cheguei a conhecê-lo – minha primeira visita a Andasibe data de 1993 – mas me encontrei muitas vezes com três de seus irmãos Maurice, Patrice e Luc, e com sua irmã Marie. Juntos, visitamos seu túmulo no meio da floresta e ouvi a estória do assassinato um par de ocasiões. Os irmãos o consideram como um verdadeiro mártir da reserva de Andasibe.

Foi dessa maneira trágica que a Associação de Guias de Andasibe (AGA) teve origem em 1992. Os irmãos de Bedo, Raymond Nirina, hoje presidente da AGA, e mais alguns aliados decidiram que deveriam homenagear o trabalho do falecido e criaram a organização. “Bedo foi – e sempre será – quem nos inspirou a abraçar a profissão de guia turístico. Seguimos até hoje seu exemplo e sua visão”, declarou com emoção Nirina.

Para quem quer entrar numa floresta totalmente desconhecida para observar a fauna singular da reserva de Andasibe, um guia turístico é mais importante que uma garrafa de água mineral. As trilhas são ardilosas e os animais sabem se camuflar. Ter um bom guia ao lado significa descobrir alguns dos mistérios da floresta e observar animais que poderiam passar totalmente despercebidos.

Andasibe está situada a apenas 140 km da capital Antananarivo. A estrada sinuosa, embora asfaltada, pode ser percorrida em três horas. Quem quiser passar um ou dois dias na natureza e observar espécies emblemáticas de Madagascar não pode deixar de fazer esse desvio. Por sua fácil localização, o parque recebeu 28.000 visitantes em 2005 e, quando o secretario geral da ONU Kofi Annan visitou o país em março de 2006, seu roteiro também incluiu Andasibe.

Foi exatamente por isso que decidimos que Andasibe seria o destino dos cinco jornalistas africanos que haviam sido convidados a um encontro de conservação em Madagascar. Madrugamos, vimos o sol nascer já na estrada e chegamos ao parque antes das nove. Nirina, sempre atencioso, havia congregado sua trupe e todos estavam uniformizados e enfileirados, à espera dos ilustres visitantes. Orgulhoso de sua associação de 21 guias profissionais e 15 estagiários, Nirina, em um excelente francês e bom inglês, explicou aos jornalistas africanos a importância do parque, as normas para a visita e algumas características dos lêmures.

O mais famoso habitante dessa pequena reserva de 8 km2 é o Indri, o maior dos lêmures. É também um dos mais fofos, pois seu focinho de cachorro e corpo gordinho e peludo, preto e branco como um panda, faz com que todo visitante se apaixone pelo primata. O Indri, um parente distante dos seres humanos, pesa apenas sete quilos, mas seu canto alto e estridente pode assustar os desavisados.

Dividimos-nos em três pequenos grupos e escolhi seguir Nirina. Como bom ariano, eu queria ser o primeiro a encontrar uma das duas famílias habituadas aos visitantes e poder fotografar algum animal. Nirina entendeu minha estratégia e apressou o passo. Subimos a colina escolhida pelos Indris como morada e nosso guia afinou seus ouvidos e sua visão.

Não demorou nem quinze minutos e nosso guia sussurrou a frase tão esperada. “Estão no alto daquela árvore, comendo folhas”. Confortavelmente sentados em forquilhas, quatro Indris estavam degustando, com serenidade, a primeira refeição do dia. Seus dedos, quase humanos, agarravam pequenos galhos, envergando-os em direção à boca.

Mas a foto almejada era impossível, pois os primatas estavam distantes e, pior, no contra-luz. “Vão ficar no topo da árvore pelo menos 30 ou 40 minutos”, avisou Nirina, perguntando-me sutilmente se eu estava disposto a esperar que os animais mudassem de posição. Respondi que ele deveria continuar a visita com nossos colegas e que eu conhecia o caminho de volta à trilha principal.

Para desfrutar uma floresta é preciso estar sozinho e em silêncio, sem movimentos. Com a saída de meus colegas, passei a fazer parte da paisagem e escutar os ruídos que até então eram abafados pelos sons humanos. Ouvi os insetos, o vento nos galhos e até mesmo os Indris mordendo e mastigando as folhas. Com um olho nos lêmures e outro no bosque que me abraçava, os minutos de espera deixaram de ser um contratempo.

Minha meditação de olhos abertos foi interrompida bruscamente por um grito agudo. Consegui identificar o Indri que “cantava” e, entre as folhas, perceber sua boca aberta emitindo os sons em notas decrescentes. Um Indri vizinho respondeu com a mesma melodia em três partes, que pode ter a duração de dez segundos. Esqueci a máquina fotográfica e agucei os ouvidos. Um terceiro animal entrou no concerto e, mais longe, um Indri de uma outra família também marcou sua localização.

Durante aquele minuto, o bosque de Andasibe se transformou em um ambiente feérico. Todos os insetos e pássaros se calaram para ouvir os cantos dos Indris. Esta era minha oitava visita a Andasibe, mas eu me sentia como uma criança enfeitiçada por um novo brinquedo, curtindo-os como se fosse a primeira vez que eles estivessem à minha frente.

Finda a gritaria, o lêmure que estava mais alto mudou de posição. Sem presa ou ansiedade, ele desceu até o tronco principal, se agarrou a ele com as duas mãos e dois pés e, usando a força dos músculos de suas pernas, se projetou para o lado em um enorme salto. Aterrizou perfeitamente em um outro tronco, avistou uma outra árvore e deu um segundo pulo.

Tudo aconteceu muito rápido e não consegui capturar a imagem que eu buscava. Porém, os outros três lêmures ainda estavam na mesma árvore e eu sabia que seguiriam o mesmo percurso escolhido pelo líder. Eu só precisaria ser mais ligeiro no gatilho.

Dito e feito. Captei a imagem que eu buscava com o segundo e o terceiro Indri. Nirina apareceu quando o ultimo havia pulado, se enfronhando no mato. Feliz com as fotos, dei atenção ao amigo. “Encontramos um grupo de lêmures marrons na trilha principal e os jornalistas estão entusiasmados. Venha com a gente”, contou Nirina, me intimando a seguir seus passos.

O segredo para avistar e chegar bem pertinho dos lêmures é que estes estejam habituados aos seres humanos. É um trabalho lento e que pode demorar alguns anos até que os animais deixem de se sentir ameaçados. Biólogos e guias turísticos cumprem um papel fundamental nesse processo de aproximação.

Embora o Indri seja a estrela de Andasibe, existem na reserva outras nove espécies de lêmures, cinco deles noturnos. A 20 km dali, o Parque Nacional Matandia, com dimensões bem maiores que Andasibe, alberga as mesmas dez espécies e mais duas adicionais.

Os dois “novos” lêmures são uma gracinha e Nirina não teve dificuldade para nos convencer a visitar o parque nacional Matandia no dia seguinte. Passamos à manhã toda subindo e descendo trilhas para encontrar o Sifaka Diadema e o Varecia preto-e-branco. Mas a recompensa de vê-los bem pertinho foi bem maior que o esforço realizado.

Infelizmente, em algumas regiões de Madagascar, os lêmures ainda são caçados e podem virar parte de uma refeição malgache. Em outros lados, é a destruição do habitat que ameaça a sobrevivência dos lêmures e de outras espécies endêmicas. A Associação de Guias de Andasibe, nesses quase 15 anos de atividade, transformou-se em um dos bastiões para a conservação da natureza. Os guias provaram para a comunidade que a biodiversidade pode trazer mais recursos que um espaço adicional para agricultura. O resultado em Andasibe é gratificante: as duas famílias de Indris que se deixam ver e fotografar são responsáveis por uma receita de cerca de meio milhão de dólares anuais em ecoturismo.

Os jornalistas africanos saíram de Andasibe felizes, pois haviam conseguido observar diversas espécies de lêmures. Eu tinha uma razão adicional para estar contente: além de ter reencontrado Nirina, Maurice e outros amigos, eu testemunhava que a associação havia crescido, estava se profissionalizando e que a iniciativa representava concretamente uma alternativa econômica à destruição da natureza. Bedo não chegou a ver essa conquista, mas a cada ano que passa, sua visão se torna cada vez mais realidade.

Publicado na revista PLANETA de setembro de 2006


por Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia e vice-presidente de comunicação da ONG Conservação Internacional. Haroldo viaja como fotojornalista e diretor de documentários e visitou 131 países. Durante essa 13a visita a Madagascar, Haroldo levou a Andasibe jornalistas africanos que participavam de um simpósio de conservação.

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