Madagascar: Lêmures de olhos azuis
janeiro, 2005
Se no seu currículo de Viajologia você pretende compreender melhor a
evolução de nosso planeta, Madagascar é um excelente destino. Poucos
brasileiros vão a esse canto do mundo, mas vale a pena conhecer a
natureza singular dessa ilha encantada – é como se você penetrasse em
um gigantesco laboratório natural.
Madagascar se desprendeu do continente africano há 160 milhões de anos e, deslizando pelo Oceano Índico, seguiu seu próprio caminho, “gerando” plantas e animais que não são encontrados em nenhuma outra parte do mundo. Os grandes mamíferos africanos – como elefantes, rinocerontes, hipopótamos e felinos – jamais conseguiram cruzar o canal de Moçambique, hoje com 400 quilômetros de largura. Nem mesmo cobras venenosas alcançaram a ilha.
Porém, um primo longínquo nosso, depois de uma carona em algum tronco de árvore africana, desembarcou em Madagascar há uns 40 milhões de anos. Os lêmures se multiplicaram, se diversificaram e conquistaram os espaços que estavam vazios. Hoje, numa área exatamente do tamanho do Estado de Minas Gerais, existem 72 espécies e sub-espécies diferentes desse primata.
O objetivo dessa minha visita à Madagascar foi filmar esses bichinhos que parecem ser de pelúcia. Mas não qualquer um lêmure. Dessa vez tínhamos que encontrar o lêmure de olhos azuis!
O Eulemur macaco flavirons, o único lêmure que possui olhos celestes, só pode ser encontrado em uma pequena península ao noroeste da ilha. Para chegar até a estação biológica situada nessa região chamada Sahamalaza, aterrizamos primeiro em Ananalava. O pesquisador alemão Christoph Schwitzer, de 31 anos, esperava-nos na pista. Como eu estava viajando com Russ Mittermeier, famoso primatólogo e presidente da ONG ambientalista Conservação International, a recepção foi entusiástica. Russ acabava de aprovar uma doação ao projeto e Christoph precisava impressionar seu benfeitor e ídolo.
Passamos direto para a lancha e duas horas depois, com sol a pino, ancoramos em Marovato, um pequeno vilarejo de pescadores. Porém, faltavam-nos ainda duas horas para chegar ao acampamento. Sem pausa, apesar do calor de 40o C, resolvemos encarar a trilha.
O que já havíamos visto do avião, comprovamos à medida que penetrávamos no interior da península. A terra vermelha mostrava suas veias abertas: a erosão é a triste conseqüência do desmatamento brutal da ilha. A chuva torrencial de verão, não encontrando vegetação para amortecer a sua queda, varre o chão, tornando-o cada vez mais infértil e desabrigado. O resultado é uma sucessão de crateras, lunares se não fosse pela sua cor vermelha berrante. Os malgaches têm até um nome específico para esses buracos enormes: lavaka. “Nunca pensei que poderíamos ver tanta erosão em uma região remota do país como essa”, confidenciou-me Russ. “Essa devastação é uma razão adicional para proteger esse lêmure tão raro.” De fato, nosso pequeno lêmure de olhos azuis é considerado como “criticamente ameaçado de extinção” por conservacionistas. Estima-se que apenas mil animais ainda vivem na natureza.
Nora Schwitzer foi quem nos recebeu na entrada do acampamento. Nora e Christoph haviam se casado apenas há três semanas, mas trocaram sua lua-de-mel pelo trabalho de pesquisa, apoiado pela Universidade de Colônia. Um belo exemplo de amor à causa...
Sem perder um minuto sequer, o casal de pesquisadores, Russ e eu entramos no mato. Nada de suspense para encontrar nossos amigos. A menos de 300 metros do acampamento, encontramos dois machos (de pelo negro) e três fêmeas (de pelo marrom clarinho) que saltavam entre galhos. Com binóculos e teleobjetivas pudemos confirmar que o azul dos olhos era verdadeiro mesmo. Russ vibrava como uma criança. Para ele, este era seu 52o lêmure diferente! Seu objetivo, ainda nessa década, é chegar ao total de 72 – avistados somente na natureza, zoológico não vale.
À medida que seguíamos os animais, descobrimos algo peculiar. Quando os lêmures pulavam de ramo em ramo, no alto das árvores, dezenas de cigarras voavam apavoradas. Apesar desse primata não ser um exímio caçador, uma das cigarras sempre acabava na sua mãozinha e, logo depois, no seu estômago. Nora nos explicou que esse seria um mês muito rico em consumo de proteínas e gorduras (graças à eclosão das cigarras), mas que a dieta do animal poderia variar muito e que certamente passaria por períodos de escassez. “Por isso queremos abarcar um período de 13 meses na estação, acompanhando o mesmo grupo de lêmures para melhor compreender o comportamento deles. E assim, melhor protegê-los”.
Cerca de 20 lêmures vivem no fragmento de floresta onde estávamos. Mais uns 40 habitam um outro fragmento, a um quilômetro da estação. Porém, as florestas que servem de habitat para esse primata único estão cada vez mais despedaçadas, seja por lavakas como por queimadas e desmatamentos. “Se não conseguirmos criar uma área natural protegida nos próximos cinco anos, o lêmure de olhos azuis vai virar lenda na próxima década”, concluiu Christoph. “O mundo precisa saber que essa espécie está à beira do extermínio”.
Esperamos que essa extinção não aconteça, mas se você quer ser o segundo brasileiro a observar esse primata na natureza, Christoph e Nora convidam você a passar alguns dias na estação de Sahamalaza. Eles estarão à sua espera até julho de 2005 e você só precisa pagar a gasolina do bote. Se você está seriamente interessado, envie um email diretamente para o casal (studpri@zoo-koeln.de) e diga que essa visita faz parte de seu curso em Viajologia.
(publicado em VIAGEM E TURISMO em janeiro de 2005)




