Indonésia: O dia em que Aceh chorou
março, 2005
Viajar é também estar em contato com a amargura humana. Minha
recente viagem à Aceh, na Indonésia, para documentar o impacto do
tsunami e o trabalho de apoio aos sobreviventes, transformou-se em uma
das mais marcantes da minha vida.
Em 10 dias percorri 2.500 km em
caminhonete. Na ida para Banda Aceh, capital da província, a estrada
estava congestionada. Caminhões, decorados com bandeiras, faixas e
logos, transportavam suprimentos para as vítimas e retornavam às
pressas, vazios, para um novo carregamento. Deixando a região, dúzias
de ônibus levavam peregrinos à Medan e daí para a Meca para celebrar o
Haji. Veículos militares promoviam sua presença; desde que havíamos
cruzado a fronteira com a província de Aceh, estávamos em uma zona de
guerra – o Movimento Aceh Livre vem lutando há três décadas pela
independência. Em um trecho da estrada as barreiras da polícia e do
exército repetiam-se a cada quilômetro. Ironicamente, eu jamais poderia
ter entrado em Aceh antes do dia 26 de dezembro, pois a província
estava (e ainda está) em estado de emergência. Mas, depois do tsunami,
o exército, no início sem muita convicção, teve que abrir as portas de
Aceh aos estrangeiros.
Ao passar pelo primeiro vilarejo à beira
do mar, observamos que todas as casas, de um lado e do outro da
estrada, estavam destruídas. Um dos sobreviventes revelou que dúzias de
pessoas morreram: 75% dos habitantes de Keude Mane haviam sido tragados
pelas ondas gigantes. Logo depois, outra marca da destruição, dessa vez
do terremoto: a estrada mostrava longas brechas abertas no asfalto e
todos os postes estavam no chão.
Chegamos em Banda Aceh à noite.
Mas só compreendemos a dimensão da tragédia na manhã seguinte. Passamos
por quilômetros e quilômetros de bairros cujas casas haviam sido
totalmente destruídas. Era como ver um filme de ciência ficção sobre o
impacto de uma bomba atômica. Tudo estava achatado, arrasado. Carros
haviam sido torcidos pela força da água como se fossem brinquedos.
Barcos estavam a três ou quatro quilômetros do litoral, empilhados em
cima dos escombros. As casas, a maioria de madeira, foram transformadas
em tábuas quebradas, tijolos repartidos e telhados de zinco envergados.
Tudo aconteceu numa ordem de grandeza bem maior que a nossa escala
humana.
Embora as três ondas gigantes haviam varrido Banda já há
19 dias, a lama original ainda envolvia os destroços. Lama por todo
lugar, com seu odor fétido e junto com o cheiro da morte. Impossível
passar pelas ruínas sem uma máscara cirúrgica. Vários carros da polícia
recolhiam corpos.
Visitamos as ruínas acompanhados por uma bióloga achenesa, Dra. Tjut Sugandawati. Ela viera à cidade socorrer familiares e amigos – Tjut perdera 90 parentes e somente seis corpos haviam sido encontrados até então. O número de mortos na província de Aceh ultrapassou 230.000 e mais de 100.000 pessoas pereceram na capital e arredores.
Especialista em manguezais, Dra. Sungandawati foi categórica. “Todos os mangues de Banda foram destruídos para dar espaço à expansão da cidade e à criação de camarões. A natureza não foi respeitada. Se tivéssemos mantido uma longa faixa de manguezais no litoral, seu emaranhado de raízes teria funcionado como uma barreira natural”.
Comprovei essa afirmação durante minha viagem à Meulaboh, alguns dias depois. O único trecho da estrada com floresta até a praia é uma curta faixa de 8 km, dentro do Parque Nacional Gunung Leuser, que liga uma serra no interior da ilha ao mar. De fato, a vegetação natural serviu como barreira protetora e as ondas não avançaram mais do que 100 ou 200 metros terra adentro. Em planícies abertas, as ondas penetraram até quatro ou cinco quilômetros.
A
quantidade de madeira das casas que foram destruídas em Banda e em
Meulaboh representa um grande impacto ambiental. As estimativas são que
dezenas de milhares de casas foram aniquiladas, sendo que quase todas
elas haviam sido construídas apenas com tábuas e vigas. Como quase nada
poderá ser reciclado, quando a reconstrução das casas começar, ocorrerá
uma grande demanda por madeira. Infelizmente, o pouco que sobra das
florestas de Sumatra – região que ainda abriga orangotangos, tigres e
rinocerontes – pode desaparecer em breve, legal ou ilegalmente.
Em
Meulaboh conheci Dr. Ridwan, um jovem médico de Java. Quando Dr. Ridwan
soube da notícia do tsunami, ele reuniu colegas e, no mesmo dia,
decidiram formar uma equipe voluntária de socorro. Pagaram seu próprio
transporte e chegaram em Meulaboh na primeira semana de janeiro.
Diariamente eles partiam a um campo de refugiados diferente, munidos de uma imponente mochila vermelha. Dentro da sacola flamejante, levavam uma pequena clínica ambulante, contendo aparelhos de medir pressão, estetoscópios, equipamentos médicos básicos, centenas de comprimidos e muita vontade de ajudar as vítimas. À noite, Dr. Ridwan escutava as histórias de sua equipe e confirmava que ele estava no lugar certo, fazendo a coisa certa por seu país.
Na manhã seguinte, visitei, junto com o Dr. Ridwan e Jatna Supriatna da Conservação Internacional Indonésia, o acampamento de refugiados no vilarejo de Kawai, a 20 km de Meulaboh. Cerca de 1.700 pessoas estavam abrigadas em 40 barracas de lona. Médicos do exército francês, a serviço do Unicef, aplicavam vacinas contra rubéola nas crianças até 16 anos para evitar uma epidemia. Soldados da Indonésia distribuíam alimentos e sarongs, provocando, por uma vez, sorrisos de agradecimentos. Médicos de Singapura, especialistas em traumas respiratórios, atendiam os casos mais graves – muitos sobreviventes haviam engolido água salgada com lama e os casos de pneumonia haviam sido elevados.
O par de horas que passei em Kawai foi suficiente para comprovar que a sociedade civil da Indonésia e a ajuda internacional realizavam um admirável trabalho de apoio àqueles que haviam perdido tudo na vida, inclusive parentes. Foi o momento da viagem que mais me tocou o coração. É verdade que quase chorei ao fotografar um ursinho na lama em Banda Aceh e um relógio de parede quebrado, sob os escombros, marcando 9:38 da manhã, a hora da desgraça. Porém, ver aquelas pessoas de diferentes nacionalidades, tratando de salvar o maior número de vidas possível, me deu uma tremenda esperança na bondade do ser humano.
(publicado em VIAGEM E TURISMO em março de 2005)




