Índia: Alerta Vermelho para os Tigres
fevereiro, 2006Incompetência, mentiras e burocracia estão exterminando os tigres no Rajastão. Peles, ossos, garras e órgãos são exportados para a China.
“Há apenas três décadas existiam 12 reservas no estado do Rajastão com populações aceitáveis de tigres de Bengala”, afirmou Aditya Singh, um conservacionista que mora em Sawai Madhopur. “Hoje, apenas um parque nacional, o de Ranthambhore, ainda possui tigres no Rajastão”.
Mesmo morando do outro lado do mundo, a situação crítica dos tigres na Índia havia chegado à minha atenção. No início de 2005 acabei sabendo que a população de tigres no parque nacional Sariska, também no Rajastão, havia sido totalmente dizimada.
Quando participei em novembro de 2005 da 13a conferencia anual da Federação Internacional de Jornalistas Ambientais em Delhi, aproveitei para aprender um pouco mais sobre o assunto. Depois de quatro dias na capital, viajei com 12 outros jornalistas à Ranthambhore.
Nosso grupo não poderia ser mais heterogêneo: de russo a nigeriano, de europeus a norte-americanos. A maioria era composta de indianos, representando as mais variadas religiões: havia hinduístas, muçulmanos, sikhs, zoroastrianos e cristãos. Mas todos compartilhavam uma mesma missão: saber o que realmente estava acontecendo com os tigres de Ranthambhore.
Durante as sete horas de trem até Sawai Madhopur, a troca de informações foi intensa. A crise em Sariska parecia assombrar a todos. “Apesar do censo de 2004 do departamento florestal revelar que 16 a 18 tigres ainda viviam no parque, as informações de conservacionistas, jornalistas e comunidades vizinhas confirmavam que os tigres haviam desaparecido de Sariska no final de 2004”, contou Dorothea Riecker, uma jornalista alemã residindo em Delhi. “A partir de 2005, ninguém descobriu mais nenhuma pegada, não ouviu nenhum rugido e nem encontrou carcaças, seja de tigres ou de suas presas”.
O colapso de Sariska em 2005 criou uma comoção nacional. Afinal, o tigre, símbolo de poder ilimitado, é um dos animais sagrados no Hinduísmo e companheiro da toda poderosa deusa Durga. Além de ser oficialmente o animal nacional, o tigre é, junto com o Taj Mahal, um dos principais símbolos do turismo do país.
Com a confirmação da notícia do desaparecimento dos tigres em Sariska, o tema chegou às manchetes e o governo se sentiu na obrigação de ativar o Tiger Task Force para apurar as denúncias. Em agosto de 2005, o grupo de trabalho concluiu que o sistema interno do parque havia entrado em colapso completo, que não existia nenhum tipo de patrulhamento eficiente na reserva e que a metodologia de contagem dos tigres era, no melhor dos casos, inadequada e errônea – no pior, pura mentira. Enquanto os animais estavam sendo dizimados, os burocratas do departamento florestal, usando um sistema furado de contagem, mantinham que os tigres continuavam a existir em números razoáveis. Isso tudo para não perder o emprego.
A pergunta que todos faziam, ainda no trem, era se a catástrofe de Sariska não estava prestes a se repetir no parque Ranthambhore.
Nossa primeira entrevista foi com o homem responsável pela criação do parque, Fater Singh Rathore. Ele começou nos contando a história do lugar, em tom romântico, lembrando dos anos 50 e 60, quando o marajá de Jaipur ainda utilizava Ranthambhore como sua reserva particular de caça. Mas as perguntas dos meus colegas, ansiosos em saber quantos tigres ainda existiam na reserva, o fizeram retornar aos dias de hoje. “Apesar do departamento florestal afirmar que existem 26 tigres em Rathambhore, eu acredito que esse número esteja inflado pelo sistema de contagem. Creio que deva haver apenas 17 ou 18 animais”, informou Rathore.
Retornando de um dia de trabalho, Colin Stafford, cinegrafista irlandês, juntou-se ao grupo. Não mediu palavras. “Não existe um patrulhamento eficiente dentro da reserva. Os guarda-parques não estão preparados para confrontar os caçadores de tigres, preferem ficar nos seus escritórios. São corruptos, ineficientes e mentirosos”, declarou Stafford. Com 475 dias de filmagens em Ranthambhore nos últimos seis anos, Stafford tem autoridade para afirmar que ele nunca viu o parque numa situação tão desesperadora. “Eu cheguei a encontrar 17 tigres em apenas um dia de filmagem. Hoje, se tiver sorte, encontro um ou dois. Nesses últimos três anos, mais de 20 tigres, muitos dos quais eu filmei, desapareceram”. Segundo ele, o número de tigres vivos não passaria de uma dúzia. “Pior, temo que exista hoje apenas um macho reprodutor. Se esse macho desaparecer, os tigres de Ranthambhore não conseguirão sobreviver”.
Depois desse veredicto, todos nós nos calamos. Foi como um minuto de silêncio. Não havia muito mais o que dizer. Os jornalistas se entreolharam; nossos rostos exibiam uma mistura de tristeza e fúria. Como tudo isso pôde chegar a esse ponto? Mesmo assim, ainda tínhamos esperança de avistar pelo menos um tigre. Conseguiríamos?
O destino final de qualquer tigre morto são as farmácias da China. Seus ossos são utilizados para tratar problemas musculares, seu rabo é misturado a sabão para resolver doenças de pele, seus bigodes são utilizados como amuleto para desenvolver coragem (mas também serviria para tratar dor de dente!) e seu pênis, sem surpresas, teria poderes afrodisíacos. Um quilo de osso de tigre é vendido por até $4.000 dólares em Hong Kong e em Taiwan. Um tigre inteiro valeria 15 mil dólares, mas, esquartejado, suas partes vendidas no varejo podem somar mais de 50 mil dólares.
Com um valor tão alto no mercado negro, vale a pena correr o risco de caçar um tigre. Mas Aditya Singh explica que a empreitada não é para qualquer um: “Na Índia, existem tribos de caçadores, como os Mogiya, que fazem um trato especial com as comunidades. Eles protegem as plantações gratuitamente, mas têm o direito de matar os animais selvagens que poderiam invadí-las”. Assim, antes que os porcos selvagens ou veados comam a colheita, os Mogiya dizimam os predadores, que são consumidos ou vendidos no mercado. “São exímios caçadores, sabem se posicionar à espera de uma presa. Possuem séculos de tradição. Só sabem fazer isso”, afirma. Os Mogiya são considerados quase como parias na sociedade estratificada indiana. Originários do Madhya Pradesh, eles perambulam como nômades pelo país, não possuindo mais que uma cabana. “Para os Mogiya, que vivem em um estado crônico de pobreza, cruzar a linha da ilegalidade não é difícil. Recentemente um desses caçadores, Devi Singh, foi preso e confessou ter matado e vendido cinco tigres”, completou Aditya Singh. Mesmo assim o atual chefe do parque, Raghuvir Singh Shekhawat, insistiu na mesma tecla: “Nos últimos dois anos nós estamos certos que nenhum tigre desapareceu da reserva”. O episódio de encobrir a verdade em Sariska estaria se repetindo?
A equação para a sobrevivência do tigre no Rajastão (e na Índia) é complexa. Uma das conclusões do Tiger Task Force é que as comunidades locais devem ser melhor inseridas no processo de proteção do tigre. Até agora, na maioria dos casos, as comunidades só sentiram o impacto negativo, impedidas de entrar nas reservas ou de usá-las como pastagem para seu gado. Por que os camponeses protegeriam o tigre se este está complicando a existência deles? Resultado, as comunidades ao redor de Ranthambhore não vêm o tigre com bons olhos e fazem vista grossa ao saber que os Mogiya podem estar caçando ilegalmente.
Existem também controvérsias sobre como o turismo em Ranthambhore está sendo organizado. O aumento de hotéis em Sawai Madhopur e a falta de coordenação com a reserva já serviram como argumento para considerar o turismo prejudicial ao parque. “Se o turismo não for controlado, em cinco anos não teremos mais tigres”, disse Govind Sagar Bhardwaj, quando dirigia o parque Ranthambhore um ano atrás. “A extinção dos tigres não tem nada a ver com turistas. Muito pelo contrário, é o turismo que pode salvar o tigre”, replicou Aditya Singh, que também gerencia um dos hotéis da região. “O turismo é mais eficiente para a proteção dos tigres do que as patrulhas realizadas pelo parque”.
A discussão prometia se aprofundar noite adentro, mas a possibilidade de ver um tigre de verdade no dia seguinte soava mais interessante. Atordoados com tanta informação, resolvemos ir dormir para poder acordar às cinco e meia da manhã.
Chegamos ao portão do parque às sete horas, quando este é aberto aos 35 veículos que podem entrar diariamente para visitação. A bordo de nosso caminhão aberto, tipo safári africano, fomos saudados por macacos langur e faisões selvagens. Passamos toda a manhã percorrendo a estrada de terra ao redor dos dois lagos. O ambiente parecia bucólico, quase como uma cena do Ramayana, livro sagrado do hinduísmo. Veados sambar, cervos manchados e dezenas de aves decoravam a paisagem. Mas tigre que é bom mesmo, nada. Nenhum sinal.
Às onze e meia saímos do parque, seguindo o regulamento. Durante o almoço encontramos o cinegrafista irlandês. Ele, sim, havia encontrado uma tigresa e seu filhote, mas como ambos dormiam no meio da vegetação, ele nem chegou a filmá-los.
A busca foi mais intensa à tarde, com longas paradas e esperas frustrantes. Há alguns anos, seria quase que impossível passar dois dias na reserva e não ver um tigre. Afinal, mais de 90% das fotos e dos filmes sobre tigres no mundo foram originados em Ranthambhore. Como Colin Stafford explicara, a realidade atual era desalentadora.
O sol já estava no horizonte. Tínhamos apenas alguns minutos de luz do dia. Foi quando o motorista, depois de trocar algumas palavras no walkie-talkie, deu uma brusca guinada, mudou de direção e acelerou. Alguma coisa estava acontecendo. Entrou por uma estradinha estreita até chegar à margem do lago. Não conseguimos conter nossas emoções quando vimos uma sombra amarelada passar à nossa frente. Tivemos tempo ainda de ver o rabo da tigresa entrando pelo mato. Poucos segundos depois, seu filhote (não tão pequeno assim) desfilou lentamente a uns 20 metros de distância. Minha câmera de vídeo estava, por sorte, na boa posição. Durante 14 segundos captei a imagem que simbolizaria nossa viagem.
A sensação de ver um tigre solto, em seu habitat, é indescritível. Uma injeção de adrenalina na veia. O fato de que havíamos observado dois tigres também simbolizava esperança, um sentimento que estava em baixa naqueles dias que passamos em Ranthambhore. Imbuído dessa excitação, o grupo de jornalistas ambientais dos quatro continentes decidiu, quase como um pacto entre irmãos, que deveríamos usar nossas plumas e notebooks para informar nossos respectivos leitores sobre o que estava acontecendo na Índia. Seria nossa contribuição para que o maior dos felinos possa ter maiores chances de sobreviver.
Mesmo se do outro lado do mundo, a revista PLANETA orgulha-se em levantar essa bandeira e informar o público brasileiro que Ranthambhore e seus tigres não podem desaparecer. Fazem parte de nossos mitos e lendas.
Publicado na revista PLANETA de fevereiro de 2006
Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia e vice-presidente de comunicação da ong Conservação Internacional, viajou à Índia seis vezes. Visitou 127 países, como fotógrafo, jornalista e diretor de documentários.




