Guiné Equatorial: Em busca da Rã Gigante
julho, 2006Uma agitada jornada pelas florestas africanas
A Guiné Equatorial era uma das nações mais pobres do mundo até 1996, quando grandes reservas de petróleo foram descobertas. Com a chegada das multinacionais, o país se transformou. No nosso vôo até essa ex-colônia espanhola, os passageiros pareciam ser engenheiros, técnicos ou consultores regressando ao trabalho. Com uma taxa anual de crescimento de mais de 18%, a terceira mais alta no mundo, a necessidade de mão de obra especializada para construir uma nova nação é crescente e quem se aventura a viver nessas terras úmidas e quentes é recompensado com um alto salário.
O país é pequeno – do tamanho do estado de Alagoas – e a capital Malabo não está situada no continente africano, mas numa ilha, chamada Bioko. Mais uma vez, eu viajava com Russ Mittermeier, presidente da ong Conservação Internacional. Nosso objetivo não era descobrir nenhuma riqueza mineral no sub-solo. Queríamos observar e, se possível, fotografar e filmar, a maior rã do mundo, a Conraua goliath. Desde pequeno, quando havia visto essa enorme rã em um zoológico, Russ alimentava o sonho de encontrar o animal em seu ambiente natural: os rios turbulentos da Guiné Equatorial ou do país vizinho, Camarões.
Para chegar ao parque nacional Monte Alen, onde poderíamos encontrar a rã Golias, viajamos de Malabo para Bata, no continente, e de lá pegamos a estrada. No caminho, encontramos tartarugas, pássaros e pequenos roedores – todos mortos e amarrados pelas pernas em uma vara de bambu. Os animais eram oferecidos aos viajantes, interessados em transformá-los em sua próxima refeição. Infelizmente, na África central e ocidental, o consumo de carne de animais selvagens – bushmeat – ainda é uma prática comum, trazendo graves riscos para a saúde. Por isso, qualquer bicho de duas ou quatro patas, inclusive nossa rã, desaparece assustado ao ouvir qualquer passo humano.
Foi preciso cruzar uma concessão madeireira para chegar ao parque Monte Alen. As tristes imagens de animais mortos foram substituídas pelas longas toras de madeira tombadas, à espera de um caminhão que as levasse ao porto. De lá partiriam para a Europa, Índia ou China. E a floresta tropical continua a ser definhada.
Depois de uma hora de caminhada no mato, chegamos à beira do rio Wele. Do outro lado estava o parque nacional, teoricamente uma área protegida. Para cruzar o rio, precisávamos de uma canoa, mas a única encontrada estava com as bordas carcomidas. O barqueiro retirou a água de seu interior e chamou os passageiros. Quando os dois primeiros entraram com sua bagagem, o nível da água ficou a um dedo de entrar na canoa. Não havia outra solução: apenas duas pessoas poderiam cruzar o rio de cada vez. Como éramos 16 pessoas e o trajeto ida e volta levava uns 15 minutos, a operação demoraria duas horas.
Russ, com o pensamento fixo na rã e contrariado com a demora, saiu na primeira canoa. Eu fui na segunda viagem, com meu assistente local que carregava o equipamento. Com receio de perder minutos preciosos, ele acabou seqüestrando meu assistente, transformando-o em seu guia. “Vou na frente”, disse ele desaparecendo na floresta.
O que o Russ só viria a saber mais tarde é que meu assistente era um péssimo guia e que, infelizmente, tomariam a trilha errada. Embrenharam-se pelo caminho antigo: mais curto, porém com muita vegetação. E abriram passo a facão para chegar até a cachoeira onde estariam as rãs.
Já era o final da tarde, quase sem luz do dia, quando cheguei na cascata. Tive o tempo exato de colocar a câmera no tripé e filmar alguns ângulos da queda d’água durante 90 segundos, quando... uma tremenda trovoada arrebentou nossos tímpanos. Imediatamente, uma tempestade derramou-se sobre todos. Parecia que a cachoeira havia se deslocado e que agora estava caindo nas nossas cabeças. A pesada e escura nuvem não somente trouxe chuva como também escuridão.
Precavido, eu trazia uma lanterna no bolso. Andamos uns 100 metros e vi outras luzes à frente. Deveria ser o Russ e o meu ex-guia. A tempestade não facilitava a visão e, ao me aproximar, joguei, sem hesitar, o facho de luz na cara de quem estava a minha frente. De fato, era o Russ. Mas algo estava diferente em seu sorriso. Sim, faltava-lhe alguma coisa.
“Viu o que aconteceu?” Russ perguntou-me sorrindo, abrindo a boca como se estivesse no dentista. Imediatamente vi que lhe faltava um dente, um dos cisos. “Culpa sua”, disse-me ele rindo. “Você fez alguma macumba comigo porque eu roubei o seu guia?” perguntou ele. Eu não sabia se caia na gargalhada por ver o Russ sem um dente, como um matuto banguela, ou se me preocupava pela saúde dele. Preferi a segunda opção e perguntei o que havia acontecido.
“Um minuto depois que eu roubei seu guia, já caminhando na trilha, eu abaixei os olhos para buscar meu bloquinho de notas para fazer uma anotação e... um tronco apareceu na minha frente. Não tive tempo de desviar e a pancada na testa foi forte. Aliás, tão grande, que senti o dente pular fora. Mas consegui agarrá-lo antes de cair no chão”, contou ele. “O que você acha do meu novo sorriso?”
Como a chuva não amainava, achei melhor continuar o papo em algum lugar mais seco e tomamos a trilha rumo a um antigo acampamento do parque nacional. Chegamos a uma casa de madeira abandonada, com inúmeras tábuas podres, mas um teto com poucos furos. Encharcados, colocamos nosso equipamento em lugar seguro e nos deparamos com uma nova surpresa. Uma pessoa que não fazia parte de nossa equipe estava cercada por nossos ajudantes.
“Este hombre estaba cazando dentro del parque nacional”, gritou um dos guarda-parques em espanhol. “Quando chegamos, ele estava com um antílope e uma tartaruga dentro do seu cesto de palha”, explicou-me um outro. Os animais ainda estavam vivos, pois haviam sido capturados com armadilha.
O dia havia sido bastante intenso e eu precisava descarregar meu estresse – o caçador acabou sendo minha vítima. Esquecendo que eu não tinha a menor autoridade no país, passei a discursar sobre o fato que o intruso não poderia invadir uma área protegida, que o consumo de carne de animais selvagens não deveria continuar dessa forma descarada e que o caçador não poderia usar o acampamento do parque como lugar de descanso. Mandamos o vilão embora, sob uma tremenda chuva, e soltamos os animais.
Voltando nossa atenção às rãs Golias, Russ pôde enfim me explicar que ele não havia visto nenhuma rã na cachoeira. “Como o animal é noturno, voltarei lá depois do jantar”, decidiu. Depois de comer um pedaço de pão meio molhado com queijo, ele saiu novamente em busca dos anfíbios. Como ainda chovia bastante, eu apenas gritei: “Não se esqueça de agarrar um desses sapos gigantes para eu poder fotografar amanhã”.
Passaram-se duas horas e eu já estava dentro do meu saco de dormir quando Russ regressou – com as mãos vazias. Graças a sua lanterna, ele havia conseguido ver umas dez rãs a uns 20 metros de distância, perto da queda d’água. Porém, com exceção de uma, todas estavam do outro lado do rio, ironicamente do lado de fora do parque nacional. Ele chegou a se aproximar da única que estava na mesma margem, mas esta deu um enorme pulo quando os curiosos chegaram perto, jogando-se nas águas do rio revolto. Nem pensar em fotografá-la, muito menos em agarrá-la.
Russ voltou decepcionado porque as possibilidades de encontrar uma rã na manhã seguinte seriam ainda menores. Todo aquele esforço – e até mesmo um dente quebrado – para pouca recompensa. Ele estava contente em ter visto a rã em seu habitat natural, mas não havia conseguido fotografá-la e nem segurá-la em suas mãos. Frustrados, resolvemos tentar dormir.
Lá pelas duas horas da manhã ouvimos vozes. Alguém havia chegado ao acampamento. Teria o caçador regressado? Não, ele não teria coragem. Fui ver o que estava acontecendo e descobri que o visitante estava feliz, exibindo um sorriso de vencedor. Em uma de suas mãos ele segurava uma rede de pescar, uma espécie de tarrafa. A outra mão agarrava um saco e, pela forma, com alguma coisa viva dentro.
Em poucos minutos elucidamos a equação. Nelson, o visitante, vivia em um dos vilarejos perto da concessão florestal, mas não havia podido viajar conosco. Ao cair da noite, ele caminhou até o rio, cruzou-o com uma pequena canoa que estava escondida e seguiu a trilha diretamente até a cachoeira. Lá, no habitat da Golias, Nelson demonstrou que era um bom pescador. Com sua tarrafa, conseguiu capturar dois espécimes.
Na manhã seguinte, levamos as duas rãs de volta à cachoeira. A maior delas pesava mais de dois quilos e, esticada, media 60 centímetros. Era grande mesmo. Fotografamos a rã gigante primeiro nas nossas mãos, pois não sabíamos como seria a reação dela ao ser liberada. Com cuidado, colocamos a rã em uma pedra, nos afastamos lentamente e começamos a clicar. Ela ficou imóvel por alguns segundos, mas, num piscar de olhos, ela deu um tremendo salto, passando por cima de nossas cabeças e mergulhando de volta no rio turbulento. Missão cumprida.
Infelizmente, a rã Golias, além de ser consumida localmente como bushmeat, também é procurada por colecionadores e pode valer até três mil dólares. O governo da Guiné Equatorial está agora mais consciente da importância de conservar sua biodiversidade e pretende investir 27 milhões de seus petro-dólares em conservação. Brevemente, o presidente deve anunciar o estabelecimento de uma nova reserva de 500.000 hectares, fazendo com que 37% do território nacional esteja protegido. Por isso, deve também tomar medidas urgentes para que essa espécie singular não desapareça do planeta. Afinal, essa rã alimentou um sonho de um menino que veio a ser um dos maiores conservacionistas do mundo.
Publicado na revista PLANETA de julho de 2006
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por Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia e vice-presidente de comunicação da ong Conservação Internacional. A Guiné Equatorial foi seu país # 130.




