Explosão de Cores em Papua Nova Guiné

janeiro, 2006

Sing Sing, um festival que atenua as disputas tribais

Durante três dias, participei intensamente – e põe intensidade nisso! – do Festival Sing Sing de Mount Hagen (a capital da província das Montanhas Ocidentais de Papua Nova Guiné). O festival ocorre anualmente entre 15 e 17 de agosto e reúne mais de dois mil protagonistas, todos muito orgulhosos de mostrar seus cantos, danças, pinturas corporais e arte plumária.

Homens e mulheres da costa, da floresta e das montanhas exibiam-se com seus rostos multicoloridos, pintados com os mais variados motivos. Sobre a cabeça, um delírio ornitológico, com plumas de pássaros do Paraíso ou papagaios endêmicos. Os homens com afiadas lanças nas mãos pareciam guerreiros prontos para uma batalha; as mulheres, quase todas de torso nu, exibiam seus corpos morenos, untados de óleo para evitar que o forte sol da altitude ressecasse a pele.

Confesso que nunca me senti tão atordoado. A festa era um verdadeiro frenesi fotográfico. Eu estava rodeado por 360 graus de imagens espetaculares e assombrosas.

Os dançarinos conformavam mais de 80 grupos, apresentando-se para uma multidão de 40 mil pessoas. Os estrangeiros representavam uma minúscula fração: menos que 200. A verdade é que não é tarefa fácil chegar à Mount Hagen. A cidadezinha de 30 mil habitantes possui poucos hotéis e está perdida entre os vales montanhosos do país, sem conexão rodoviária com a capital. Os primeiros brancos só entraram em contato com essa gente tão singular em 1930.

Outra barreira para os viajantes é o alto nível de insegurança. Em Mount Hagen, o ambiente é sempre tenso. Na véspera da festa, ao sair do hotel, eu estava acompanhado por um guarda-costas armado com um imponente facão. Quando cheguei ao banco para trocar dólares, um cartaz muito sincero me avisava que eu deveria permanecer no local o menor tempo possível para diminuir as chances de que eu seja vítima de um assalto. Retornei são e salvo ao hotel, sentindo-me mais seguro por estar cercado por altos muros de concreto, com mais de um metro de arame farpado por cima. Era como se eu estivesse em uma prisão domiciliar.

“Essa violência é algo natural entre os habitantes das montanhas”, explicou-me Edy Kibikibi, um jornalista originário da costa e que tinha tanto receio de sair às ruas como eu. “Até poucas décadas, as guerras tribais eram muito comuns aqui, incluindo canibalismo”.

Segundo um sacerdote europeu, as brigas entre clãs ainda persistem na área rural e a regra é aquela de sempre: olho-por-olho, dente-por-dente. Uma desavença só não acaba em morte se existir uma longa negociação entre os clãs, onde a principal moeda corrente é... o porco. Esse animal dosmeticado a quase 20.000 anos pelos habitantes das montanhas é peça fundamental no quotidiano local. Por exemplo, para que um noivo possa conseguir uma boa esposa, a família dele deve doar 36 porcos à família da escolhida: 12 porcas grandes, 12 machos e 12 filhotes. Na tribo Huli, o porco é considerado como o segundo bem mais importante na vida, o primeiro sendo a propriedade da terra.

O Festival Sing Sing de Mount Hagen teria tido início em 1961, com a intenção de promover uma maior harmonia entre as tribos vizinhas. A idéia foi utilizar a dança, o canto, as pinturas corporais e a arte das vestimentas para desenvolver uma maior cordialidade entre grupos étnicos que nem conseguiam falar o mesmo idioma entre si – existem quase 900 línguas e dialetos diferentes no país.

Graças ao espírito belicoso de seus participantes, o Sing Sing começou como uma competição entre os grupos tradicionais. Como era de se prever, os resultados sempre traziam grandes descontentamentos. Logo depois do anúncio dos ganhadores, o festival se transformava em um barraco total, inclusive com mortos e feridos. Atualmente, não existem vencedores, nem perdedores, e o número de feridos diminuiu consideravelmente.

Mas não fique impressionado pelas guerras tribais. Como me disse Kibikibi, “isso faz parte de nossa cultura e os visitantes não são nosso alvo principal”. Participar no Festival Sing Sing de Mount Hagen é uma vivência insólita, quase que delirante, acima de qualquer expectativa. Aventurar-se por essas terras remotas do planeta é como conhecer a alma intemporal dessa espécie tão complexa, conhecida como Homo sapiens.

E aqui vai o desafio: quem se atreve viajar para o próximo Sing Sing em agosto de 2006?

Publicado na revista PLANETA de janeiro de 2006
Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia e vice-presidente de comunicação da ong Conservação Internacional, viajou à PNG três vezes. Visitou 127 países, como fotógrafo, jornalista e diretor de documentários.

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