Enviados especiais ao Chocó equatoriano

outubro, 2006

Jornalistas investigam como comunidades costeiras protegem seus manguezais

Viajar é uma atividade prazerosa para muitos. Pode ser por curtição, negócios e até mesmo por profissão. Porém, para alguns, saber mais sobre o que existe fora de sua cidade pode significar um elemento vital para sua carreira.

Foi o que aconteceu com 19 jornalistas durante uma intensa viagem de quatro dias, quando juntos descobriram o litoral do Pacífico equatoriano. A idéia era simples, porém criativa: reunir colegas que cobrem o meio ambiente na Colômbia e no Equador para conhecerem um ecossistema tropical existente em ambos países, o Chocó. Uma boa maneira de comparar experiências e confrontar realidades.

Os colombianos encontraram seus parceiros na capital Quito. Trocariam, em poucas horas, as terras frias andinas por florestas quentes e úmidas. O ônibus era pesado e longo, mas o motorista era suficientemente treinado para negociar as curvas da estrada que baixava da cordilheira até San Lorenzo.

Pela janela, percebemos as imagens da destruição dos diferentes pisos ecológicos. A 3.000 metros de altitude, as encostas dos Andes e seus vales possuíam muito pouco da vegetação original. Já a 2.000 metros, as matas de neblina mostravam suas entranhas detonadas. Na cota 1.000, o calor nos obrigou a abrir as janelas e a respirar o doce cheiro da floresta tropical. Mas o desmatamento revelava-se ainda mais feroz e audaz. Quando chegamos ao nível do mar, a surpresa foi com o calibre do investimento na monocultura da palma africana substituindo mata rica e virgem pelo dendê e seu óleo milionário.

Durante seis horas, de Quito a San Lorenzo, constatamos com nossos próprios olhos que todos ambientes, da cordilheira à costa, são saqueados sem piedade. Raras eram as ilhas que se mantinham incólumes ao Homo destructibilis. Essa verificação só poderia ser realizada graças ao famoso “pé na estrada”. Um repórter que não sai da redação ou de seu Google jamais pode sentir, no coração e na mente, o estado doentio no qual se encontra o planeta. Em poucas horas, aquela viagem já abrira a cabeça de muita gente.

Nosso destino era um porto no Pacífico, a menos de 20 quilômetros da vizinha Colômbia. Como todo porto fronteiriço, San Lorenzo tem má fama: violência, contrabando e narcotráfico. Mas os sorrisos da população local, na sua maioria composta de negros, só demonstravam jovialidade e descontração. Não havia casa ou comércio que não irradiasse uma boa música. Os jornalistas colombianos conferiam, aliviados, que seu complicado país exporta mais salsa do que guerrilha.

San Lorenzo está rodeada de manguezais. Tantos e tão altos – podem chegar a 50 metros de altura – que em 1996 o governo equatoriano decidiu criar a Reserva Ecológica dos Manguezais Cayapas-Mataje, com uma área significativa de 50 mil hectares. A reserva foi estabelecida para conter os avanços das empresas de cria de camarões. Um dos objetivos dos jornalistas era conhecer a opinião dos moradores das ilhas dentro da reserva.

Depois de meia hora de lancha desde San Lorenzo, fomos recebidos no vilarejo de Pampanal de Bolívar por Alfonso Segura, vice-presidente do conselho local, um eloqüente pescador de descendência africana. “Aqui nós nos dedicamos à pesca artesanal e coleta de conchas”, disse ele. “Quando uma empresa que produzia camarões chegou a Pampanal – mesmo com uma concessão oficial nas mãos – nós nos unimos para que eles não construíssem suas camaroneras. Pedimos proteção ao governo e apoiamos o estabelecimento da reserva”.

Alfonso explicou que antes da reserva, a comunidade usava os recursos naturais de forma indiscriminada. “Agora as pessoas pensam um pouco mais: apanham conchas com um tamanho mínimo de 45 milímetros e pescam com redes de malha mais grossa para evitar agarrar peixe pequeno. Assim, essas atividades serão sustentáveis”, afirmou.

Todos os 800 habitantes que vivem em Pampanal são de origem africana. Seus ancestrais chegaram do Chocó colombiano há um ou dois séculos, onde haviam sido trazidos para trabalhar nas minas. Encontraram ilhas no labirinto de mangues, montaram seus casebres e sobreviveram – esquecidos por todos os governos. Na época das eleições, um ou outro candidato se lembra desse punhado de votos e aparece para oferecer promessas.

“Conseguimos energia elétrica e telefone público”, ressaltou Alfonso. “Mas precisamos de água potável e ainda necessitamos resolver como o povoado vai deixar de afundar”. A cada tempestade que passa, Pampanal está cada vez mais baixo e as casas de palafitas são inundadas com maior freqüência.

Depois de uma inesperada entrevista coletiva no campo de futebol, Alfonso fez questão de mostrar o povoado. Por cada casa que passávamos, o cortejo aumentava. Crianças, não habituadas a tantos visitantes, corriam atrás da comitiva. Alfonso, um vivaz líder comunitário, não deixou escapar a oportunidade – afinal ele estava falando com jornalistas. “Temos 300 crianças em Pampanal e muitas sem escola”.

A visita quase-que-oficial virou farra quando chegamos num barraco que, à noite, se converte numa discoteca. Apesar do relógio marcar 11 horas da manhã, a criançada invadiu o salão; duas jovens esbeltas ligaram o som e uma tremenda salsa envolveu o ambiente. Colombianos e equatorianos, jovens e maduros, da serra ou da costa, jornalistas e pescadores, todos esqueceram suas tarefas para celebrar que estar vivo é o mais belo presente.

Deixamos Pampanal com lágrimas de alegria. Mas precisávamos encontrar algum grupo de pescadores ou de coletores de conchas para saber um pouco mais sobre as atividades que Alfonso insistia que eram sustentáveis.

Lucho Suárez, diretor da ong Conservação Internacional no Equador e que acompanhava o grupo como biólogo, enfatizou a importância dos manguezais como criadouro de peixes, crustáceos, moluscos e outras espécies. “Esses manguezais são verdadeiros berçários, cumprem uma função biológica vital. Por isso, nosso esforço em preservar essa área”. Suárez dirigiu o estudo técnico que serviu como base para a criação da reserva. “Algumas empresas de Guayaquil pretendiam converter os manguezais em grandes piscinas para criar camarões. Iriam destruir a ‘galinha de ovos de ouro’, uma vez que os manguezais são essenciais para as larvas do próprio camarão”.

Nossa lancha chegou em uma das ilhas e tentou se embrenhar pelo meio das ramas tortuosas do manguezal. Quando a água deu espaço ao lodo, todos os jornalistas, ávidos por terra firme, pensaram que seria fácil vencer o dédalo vegetal. Juan Carlos Gutiérrez, exímio contador de estórias oriundo de Bucaramanga, foi o primeiro a se aventurar. Queria ser o primeiro a chegar até o grupo de catadores de conchas que estavam a 20 metros de distância – quem sabe, talvez até mesmo para uma entrevista exclusiva.

Juan Carlos saltou do barco, agarrou-se num pé de mangue e começou a engatinhar pelos troncos úmidos e desgastados pela maresia. Olhos cheios de dúvidas acompanhavam seus movimentos. Colombiano da serra e não da costa, ele não tardou dois minutos em pisar no tronco errado, romper uma rama mais corroída e resvalar no emaranhado de galhos. A cena de Juan Carlos esfolado e lambuzado de lama e sangue (devido aos arranhões nas pernas e braços), entrou para o diário de bordo.

Como não chegamos até os catadores de conchas, resolvemos inverter o percurso. Clamamos por suas presenças e, em segundos, eles surgiram saltitando.

Marina, 45 anos e mãe de nove filhos, é conchera. Passa a maior parte de seu dia com pés e mãos enterrados no lodo do manguezal, vasculhando as entranhas da lama. Se ela encontrar cem conchas, sua diária é de quatro dólares. “Apenas o suficiente para alimentar meus filhos”, lamentou. “Quando retorno para casa, todo meu corpo dói”.

Esperanza Páez, uma jornalista colombiana de Tunja, não se conteve e perguntou se Marina, na hora do apuro, não levava também alguma concha menor para casa. A conchera respondeu categoricamente. “Nem pensar. Se hoje já tem pouca concha, como será o amanhã se não deixarmos essas conchas crescerem?”

Apesar da extrema pobreza na qual vivem os habitantes de Pampanal – e de qualquer outro povoado no manguezal Cayapas-Mataje – os jornalistas puderam ouvir de viva voz que a importância de proteger os recursos naturais não é assunto somente de biólogos. Quando a população local tem um incentivo para conservar suas terras e suas águas, ela grita, luta e vence.

Assim como não se pode fazer conservação apenas desde um gabinete, também concluímos que, para fazer bom jornalismo ambiental, é preciso experimentar, ao vivo e a cores, as dificuldades e as soluções encontradas por cada comunidade. E para isso, só tem uma solução: pé na estrada.

publicado na revista PLANETA de outubro de 2006

por Haroldo Castro, fundador do Clube de Viajologia, visitou 131 países, como fotógrafo, jornalista e diretor de documentários.

Receba as Estórias