Doñana, o parque mais rico da Espanha

maio, 2006

 

A sobrevivência do lince ibérico está em jogo

“Onde podemos encontrar cinqüenta quilômetros de praias selvagens no sul da Europa?” A pergunta me apanhou de surpresa. Refleti, chequei meu mapa mental e pensei em voz alta. “No Brasil, seria fácil. Mas na Europa, deve ser complicado encontrar uma extensão tão grande. Afinal, o turismo de sol e praia tem transformado as paisagens naturais européias em lucrativos vilarejos de férias”.

Juan Garay, diretor dos Parques Nacionais da Espanha, teve prazer em responder a sua própria pergunta. “Ainda existe esse lugar idílico no nosso país. Temos na Andaluzia 52 km de litoral sem nenhum impacto humano: o parque nacional Doñana possui 32 km de costa intocável e, ao seu lado, o parque natural abarca outros 20 km”.

Somente uma área protegida pode realizar o milagre de conter o desenvolvimento imobiliário. As pressões para construir resorts e hotéis de frente para o mar são enormes e os investimentos – e lucros – ainda mais altos. Graças ao esforço de naturalistas, biólogos e de algumas famílias ricas espanholas, essa franja no sudoeste da Espanha se salvou da especulação. Em 1963, com o apoio da ong WWF, o governo espanhol comprou cerca de 70 km2 e criou a Reserva Biológica Doñana. Hoje, as duas áreas protegidas, o parque nacional e o natural, compreendem mais de 1.000 km2.

“O mais impressionante em Doñana é a diversidade de ecossistemas; é o que faz desse parque nacional o mais importante de nosso país”, enfatizou Garay. “Lawrence das Arábias foi filmado nas dunas de Doñana e o parque é um dos dois lugares onde ainda podemos encontrar o lince ibérico, um felino que só existe na Espanha”.

Com essa recomendação do chefão dos parques nacionais, contávamos os dias para sair da capital espanhola. Éramos quatro jornalistas ambientais, acompanhados de nossa anfitriã, Maria Artola González, diretora geral da Fundação Biodiversidade, instituição ligada ao Ministério do Meio Ambiente.

Sevilha, capital da Andaluzia, foi parada obrigatória: visitamos o bairro antigo, a catedral e La Giralda, torre construída no século XII como minarete de uma mesquita moura. Mas nossas expectativas estavam voltadas à Doñana.

José Maria Pérez de Ayala trabalha em Doñana a mais de 30 anos. Ninguém conhece o parque como ele e, por isso, é o responsável por acompanhar os ilustres visitantes. Vários chefes de estado, como Helmut Kohl, François Mitterand e Tony Blair, foram guiados por José Maria.

Mesmo não sendo VIPs, tivemos a honra de ser escoltados pelo risonho andaluz e de viajarmos a bordo de sua potente camionete 4 x 4. Como introdução à reserva, depois de atravessarmos o rio Guadalquivir – limite natural do parque – percorremos algumas dezenas de quilômetros pela praia. Constatamos que a costa estava totalmente deserta: a vegetação mantinha-se intacta e vimos centenas de gaivotas e pássaros marinhos passeando com serenidade pela areia molhada.

Tomando um caminho de areia em direção ao interior, José Maria decidiu: “Vamos conhecer um outro ecossistema”. Passamos por uma vegetação de restinga e logo a areia branca e fofa tomou conta da paisagem. A camionete ameaçou perder força várias vezes, mas o motorista conhecia o terreno. “Tentaremos subir no topo daquela duna”.

Para chegar no topo “daquela” duna, tivemos que passar por muitas outras menores, fazendo-nos crer que havíamos cruzado o Estreito de Gibraltar e que já estávamos na África, no deserto do Saara. Só faltavam os camelos. Quando mencionei essa frase, José Maria caiu na gargalhada. “Um habitante local, desinformado que o filme Lawrence das Arábias estava sendo rodado nas dunas, viu de longe vários homens de turbantes, montados em camelos. Ficou apavorado, correu de volta ao seu vilarejo e avisou todas autoridades que os mouros estavam invadindo novamente a Espanha”.

Do topo da duna, Maria Artola explicou-nos a complexidade dos ecossistemas existentes.

“Essas dunas estão vivas. Por causa do vento, elas se movimentam, criando ‘currais’, onde apenas sobrevivem os ‘pinheiros testemunhas’, aqueles cujas raízes estiram o tronco da árvore para que ele fique acima do nível da areia”.

Além da costa e das dunas, podíamos avistar agora os marismas, os banhados de água salobra. “É essa mistura de ambientes que torna Doñana um parque único. Já foram identificadas aqui 232 espécies de pássaros e 38 de mamíferos”, ressaltou Maria Artola.

Para descer da duna, todos os santos ajudam. Chegamos na planície e começamos a transitar bem perto dos alagados. Cavalos selvagens e javalis passaram a fazer parte da nova paisagem. Paramos duas vezes para não esmagarmos tartarugas mouras, ameaçadas de extinção. No bosque de pinheiros e sobreiros (ou alcornoque, a árvore que produz a cortiça), um bando de veados vermelhos cruzou nosso caminho. Estávamos surpresos de poder observar, em tão pouco tempo, uma boa quantidade de animais selvagens. “Só falta o lince ibérico”, disse um dos jornalistas, em tom inquisitivo.

“As possibilidades de ver um lince na natureza são mínimas, pois a população hoje é muito pequena. Existem 35 linces selvagens em Doñana, identificados através de armadilhas fotográficas”, explicou José Maria. “Cerca de 100 linces vivem em outra reserva andaluz, no parque natural Sierra Morena”.

A população despencou vertiginosamente nas últimas décadas. Em 1980 um censo havia concluído que existia 1.000 a 1.200 linces na península ibérica. “Em 25 anos, perdemos 85% da população e hoje esse felino só existe na Andaluzia. Mas se vocês querem ver linces, vamos a Acebuche, onde está nosso centro de pesquisa. Criamos linces em cativeiro porque essa é a ultima solução para que a espécie não desapareça”, concluiu José Maria.

A primeira surpresa ao chegar a Acebuche foi encontrar Astrid Vargas, uma bióloga espanhola que eu havia conhecido em Madagascar quando fora filmar o lêmure de coroa dourada em 2001. Depois dos óbvios esse-mundo-é-tão-pequeno, Astrid nos fez visitar o laboratório de pesquisa, onde a equipe monitora 14 linces em cativeiro. “Temos 24 câmeras de vídeo ligadas 24 horas por dia”.

Em março de 2005, nasceram em Acebuche três filhotes de linces. “Era a primeira vez que uma fêmea em cativeiro havia conseguido ter crias. Saliega teve um excelente parto e as primeiras semanas foram perfeitas”, contou Astrid. “Mas na noite do 44o dia, uma brincadeira entre irmãos tornou-se mais violenta e as mordidas do jovem macho na garganta de sua irmã acabaram sendo fatais. Só descobrimos a tragédia na manhã do dia seguinte”. 

Foi um biólogo russo, especialista no lince boreal, quem explicou à equipe de Astrid Vargas que esses combates fratricidas acontecem no segundo mês de vida. “Segundo as pesquisas de Sergei Naidenko, o 45o dia parece ser o mais perigoso de todos. Esse dado é essencial para nosso trabalho de criação em cativeiro”, confidenciou Astrid. “Só nos resta tomar um cuidado redobrado com as novas crias”.

Passamos à sala dos monitores de vídeo, com a boa notícia de que Saliega encontrava-se no cio e, mais uma vez, havia deixado que Garfio, um dos machos, copulasse com ela. “Nesses últimos dois dias, contamos 43 acasalamentos”, explicou Astrid.  “Cada cópula tarda apenas dois minutos e esperamos que Saliega terá crias dentro de alguns meses”. Como as imagens de todas as relações estavam sendo gravadas, tivemos a oportunidade de rever, quadro por quadro, alguns dos momentos de intimidade entre Saliega e Garfio.

Além do ser humano, o culpado pela diminuição dos linces ibéricos é o coelho. Infelizmente, o prato preferido do lince está sendo atacado por duas doenças graves, a mixomatose e a pneumonia hemorrágica. “Há dez anos, quando viajávamos pelo parque, era difícil não atropelar um dos tantos coelhos que cruzavam a estrada. Hoje, não conseguimos ver nenhum. Sem comida, o lince busca outros horizontes e no ano passado cinco morreram atropelados”, relatou José Maria.

Uma nova doença ameaça o parque Doñana. A gripe aviária já chegou à Europa e os epidemiologistas alertam que pássaros selvagens podem transmití-la. Com um movimento migratório de 500.000 aves entre a Europa e a África, Doñana poderá receber algumas aves contaminadas. As autoridades estão atentas: todas as aves domésticas na região estão atualmente confinadas, para evitar qualquer contacto com as aves selvagens.

Como se não bastasse o desafio para manter vivo o lince ibérico, os conservacionistas espanhóis devem também garantir que Doñana não represente um foco da gripe aviária.

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