Curaçao, Ilha do Bom Humor

maio, 2007

Arquitetura alegre e carnaval colorido nas Antilhas Holandesas

Eu já havia visto fotos das construções coloniais de Curaçao. Mas estar em frente a esses prédios de cores vivas era como embarcar em um mundo de fantasia. De longe, pareciam ser casinhas de bonecas, realçadas pelo grito do amarelo, rosa ou celeste. Ou talvez um cenário de um filme de época.

À medida que eu atravessava a ponte Rainha Emma e cruzava o canal que separa os dois principais bairros de Willemstad, a capital de Curaçao e das Antilhas Holandesas, as edificações de três séculos de idade tomavam forma e figura. Deixavam de ser silhuetas e ganhavam uma terceira dimensão.

A ponte desembocou na entrada no bairro Punda (no idioma local papiamento, significa Ponta). Na esquina, ali estava a casa laranja-ocre, batizada de Penha, cartão-postal do país. Era uma pequena jóia arquitetônica, como se fosse parte de uma pintura primitiva ou um desenho de conto infantil. A fachada, ornamentada com motivos florais desenhados em gesso branco, contrastava com a cor quente do prédio. Também indicava orgulhosamente sua data de nascimento, 1708.

Apesar de seus 299 anos de idade, achava-se em perfeitas condições. “A Casa Penha é o exemplo típico da arquitetura barroca de Curaçao. Contribuiu muito para que o centro histórico de Willemstad fosse considerado como Patrimônio da Humanidade pela Unesco”, explicou Zaira Busby, que me acompanhava nesse primeiro périplo de reconhecimento.

Em Punda, berço de Curaçao, reconheci traços da arquitetura dos sobrados de Amsterdã. Mas a combinação de cores era o componente mais atrativo. Do lado direito da Casa Penha, na Breedestraat, uma belíssima mansão vermelha e a Casa Amarilla; na beira do canal, edificações pintadas de turquesa, laranja e salmão. Zaira, que trabalhava no Conselho de Turismo, me contou que a origem desse casario em technicolor teria sido uma determinação de um dos primeiros governadores holandeses. “Dizem que ele, sob pretexto médico, teria proibido que as casas fossem pintadas de cal branca pois a luminosidade causava-lhe irritação nos olhos. Mas quando o governador morreu, descobriram que ele era co-proprietário da firma que vendia as tintas”.

Esse tropicalismo de cores está presente em toda a ilha, das paredes às roupas – e na época do carnaval, recobra vigor. Mesmo não sendo um evento como o de Trindade e Tobago, considerado como o melhor do Caribe, o carnaval em Curaçao revela a enorme diversidade cultural da ilha e muita alegria. A partir de janeiro, o calendário inclui festivais de tumba – a música local – e eleições de rainhas e princesas. Nessa semana do evento, Willemstad estava tomada pelo frenesi da festa e o carnaval era o assunto na boca do povo.

Segui os conselhos de Zaira e fui assistir ao desfile Banda Bou no sábado à tarde em Barber, um vilarejo a 20 quilômetros da capital. Fui avisado que eu deveria chegar bem cedo. Minha pontualidade fez com que eu entrasse no vilarejo antes que a polícia fechasse o trânsito da estrada principal que corta a ilha, mas também descobri que eu estava a quatro quilômetros do início do desfile. Entre ficar parado sob o sol à espera dos grupos e caminhar em direção ao começo da festa, optei pela opção mais ativa. Pelo menos conheceria um pouco mais o interior da ilha, a pé.

Na beira da estrada, os visitantes já haviam escolhido seus lugares favoritos, à sombra de uma árvore ou no topo de uma colina. Todos tinham trazido cadeiras dobráveis e caixas de isopor cheias de gelo, cerveja e refrigerantes. Usavam sombrinhas e guarda-sóis para se protegerem do forte calor.

Depois de quase uma hora de caminhada no asfalto, sob olhares dos alegres espectadores, cheguei até o bloco que abria o desfile. Foi quando me dei conta que estava em uma pequena ilha no Caribe e não no Sambódromo do Rio de Janeiro. Banda Bou era um carnaval de rua, em um vilarejo do interior, sem nenhuma pretensão. Nada de espetáculo para televisão. Os grupos eram compostos por adolescentes, que não haviam tido muita oportunidade para ensaiar juntos. Eram seguidos por um caminhão musical, uma versão bem básica do nosso “trio elétrico”. Porém o ingrediente essencial estava presente: a autenticidade da festa. A alegria era contagiante e inspirava os espectadores a cantar e dançar.

No dia seguinte, domingo de carnaval, a Gran Marcha aconteceria em Willemstad. Reutilizei minha tática da véspera e fui de encontro à linha de largada, onde os 28 grupos se concentravam. Os espectadores estavam ainda mais preparados. As principais empresas haviam construído, mediante o pagamento de uma modesta taxa, camarotes de madeira, com algum tipo de proteção contra o pujante sol tropical. Para evitar penetras, o bilhete de entrada era a camiseta confeccionada para a ocasião. O folião também tinha a opção de montar sua própria barraca, caso ele reservasse, duas semanas antes, algum espaço ao longo da avenida. Para o público, a participação era gratuita.

Esse foi o caso do grupo Kurason Yen Zieitu (Coração Bem Alegre, em papiamento), composto de 40 membros de uma mesma família. Todo ano, Jamal Luyando e sua irmã mais velha Virginia Ignacio montam o espaço para passar o domingo de carnaval dançando, cantando e bebendo muita cerveja gelada. “Sempre criamos uma mesma fantasia para todos nós. Neste ano decidimos nos vestir como reis e rainhas da África do Oeste, para saudar nossos antepassados”, explicou Jamal, mostrando os tecidos temáticos e ornamentos. “Mas também já nos disfarçamos de chineses, músicos e cozinheiros. O importante é que nosso grupo se divirta das oito da manhã às nove da noite”.

Depois da conversa com Jamal, aumentaram minhas esperanças de que o carnaval da capital pudesse render belas imagens. Se um grupo de foliões levava o desfile tão a sério, fantasiando-se de forma sistemática todos os anos, certamente os que se apresentariam a um público de milhares de pessoas deveriam ser ainda mais criativos.

De fato, não faltou imaginação para os temas dos principais blocos. A alta costura, a produção cinematográfica e as danças colombianas foram alguns dos tópicos inusitados utilizados para inspirar aqueles que confeccionaram as fantasias. Muita cor e purpurina, como todo carnaval, e uma inexaurível interação com os assistentes que esperavam, suando em bicas, a passagem de cada grupo.

Graças ao crachá da Fudeka (Fundação para o Desenvolvimento do Karnaval) e a várias garrafinhas de água mineral, passei seis horas na avenida acompanhando os foliões. No final da tarde, aproveitando que a população de Willemstad encontrava-se ainda entretida com o festejo, resolvi fugir da multidão e visitar uma das praias mais charmosas da ilha.

Praias não são o ponto forte de Curaçao. Mesmo contando as mais modestas, a ilha não oferece mais do que 30 praias. A grande maioria de seus 60 km de costa é conformada de falésias, pedras e velhas formações de corais – cada nesguinha de areia vale ouro; literalmente ouro, porque quase todas as praias são pagas.

Lagun, apesar da beleza, é uma praia pública e gratuita. Naquele fim de tarde somente os locais estavam aproveitando dessa pequena baía fechada de águas calmas e cristalinas. Antes de me entregar a um refrescante banho com Netuno, ainda encontrei energia para subir uma escadaria que me levou até o topo da falésia para observar a paisagem do alto. Valeu o esforço.

Curaçao também possui belas paisagens lacustres, que se avivam ao receber visitantes elegantes como os flamingos. As aves aproveitam as águas salobras para encontrar minúsculos peixes e invertebrados. Quanto mais camarãozinho vermelho o flamingo ingerir, mais carotenóide irá para suas penas, dando ao sofisticado pássaro seu tom forte, entre o alaranjado e o rosa.

Minha viagem à Curaçao teve um grande desfecho. A Academia dos Golfinhos é um dos cinco lugares no mundo onde as pessoas podem interagir e nadar com golfinhos. Quando garoto, o hondurenho Livingston Brooks jamais pensou que seria o principal treinador desses mamíferos aquáticos. “Como eu gostava de carros, acabei sendo o motorista do bote que dava apoio aos golfinhos em Roatan, no meu país. Passei a admirar tanto esses animais que comecei a trabalhar com eles”. Em 2002, Livingston foi convidado para morar em Curaçao, quando a Academia dos Golfinhos trouxe seis animais do Instituto de Pesquisas Marinhas de Roatan, onde os golfinhos já estavam habituados com as pessoas.

Na Academia, os visitantes aprendem sobre o comportamento dos mamíferos, brincam com eles dentro d’água e podem até mergulhar com os golfinhos em mar aberto. “São animais extraordinários, cada um com sua personalidade. Eles parecem estar sempre sorrindo”, ressaltou Livingston.

Assim como os golfinhos risonhos, a amabilidade dos habitantes de Curaçao foi o ponto alto da minha visita. Durante a semana não encontrei ninguém de mau humor. “Temos bom coração”, concluiu Zaira. “Combina bem com o nome da nossa ilha, não é?”

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