Austrália: Os aborígines da Pedra Vermelha
janeiro, 2005Com o objetivo de reconhecer empresas e indivíduos que promovem um turismo responsável, a organização ambientalista Conservação Internacional e a revista National Geographic Traveler organizam a cada dois anos o concurso “World Legacy Award”.
Em 2004, quem ganhou o prêmio na categoria Patrimônio Cultural foi a operadora de turismo Anangu Tours. Anangu é uma palavra no dialeto Pitjantjatjara que significa simplesmente “nós, a gente”. É assim que os Anangu preferem ser chamados. Esse povo aborígine vive há algumas dezenas de milhares de anos – estimativas variam entre 20.000 e 60.000 anos – nessa região desértica, mais precisamente na área de Uluru ou Ayers Rock, aquela famosa montanha vermelha no meio do nada.
A rock foi “descoberta” pelos colonizadores somente em 1873. Para bajular Sir Henry Ayers, uma autoridade australiana, o primeiro visitante branco, William Gosse, batizou a pedra com o sobrenome do político. Mas para os Anangu, o nome verdadeiro sempre será Uluru.
Uluru e as formações rochosas vizinhas de Kata Tjuta foram declaradas Parque Nacional em 1977. Porém foi somente em 1985 que o governo australiano reconheceu que os verdadeiros proprietários da terra eram os Anangu. Em troca de uma escritura formal, os Anangu assinaram um outro documento, alugando Uluru e Kata Tjuta à Direção de Parques Nacionais por 99 anos.
Durante a primeira década, os dólares australianos dos turistas raramente fluíram em direção à comunidade. Para resolver essa disparidade, os Anangu, ao comemorar os 10 anos de devolução de Uluru ao povo aborígine, resolveram montar em 1995 a sua própria operadora de turismo. A proposta deles era diferente: mostrar aos visitantes sua maneira de ver o mundo e de ver a rocha. As veias e desenhos naturais da montanha vermelha não são apenas coincidências, elas contam a estória da luta entre as serpentes Kunya e Liru ou ainda a lenda do homem-lagarto-de-língua azul.
Existem partes da rocha, principalmente cavernas ou entalhes, que não podem ser visitadas, quanto menos fotografadas. São lugares sagrados - alguns somente para homens, outros para mulheres. Nem mesmo a comunidade, situada a um quilômetro da rocha, pode ser visitada hoje por turistas. Aliás, uma medida sábia, uma vez que 400.000 pessoas (o mesmo número que passam por Machu Picchu) chegam a Uluru anualmente.
Passei quatro dias ouvindo as estórias que os guias Anangu contam aos visitantes. Para conhecer o trabalho deles, participei de uma caminhada com Mark Kulitja, um dos guias locais. O grupo era conformado por 16 turistas – metade eram europeus e 4 eram australianos, além de um casal norte-americano e outro japonês. Essa mistura representa quase que perfeitamente as estatísticas dos visitantes a Uluru.
Como o inglês de Mark e de todos os outros guias Anangu continua sendo muito precário, sempre tem um intérprete que trabalha com eles há vários anos e que entende, não somente o idioma deles, como também a Tjukurpa, as leis, as normas dos Anangu. Mark deu boas-vindas no idioma Pitjantjatjara: Ananguku ngura nyangatja ka pukulpa pitjama. Uma jovem australiana traduziu “essa é a terra dos aborígines e Mark deseja a vocês boas-vindas”. O guia pediu aos visitantes que o seguisse.
A primeira parada foi numa palhoça onde ele mostrou como produz uma cola natural, indispensável para a confecção de suas armas e artefatos. Mark Kulitja apanhou um monte de ramos de uma planta nativa; suas folhas eram bem pequeninas e continham minúsculos pontos brancos. Quando Mark, sentado no chão, bateu com vigor e constância nesses galhos, os pontinhos brancos começaram a se soltar das folhas. Mark explicou que esse pozinho, recolhido na manta, era a sua cola. Para que os incrédulos pudessem melhor entender o que ele explicava, Mark acendeu uma pequena fogueira e colocou um pouco do pó sobre a ponta de uma espécie de tacape. Passou o pó no fogo e este se transformou numa argamassa negra, bem pegajosa. Sabedoria de quem conhece muita bem a natureza ao seu redor.
Mark saiu da choça e convidou os homens para um torneio. Andou uns quinze metros e enterrou uma estaca no chão. Ao regressar entregou lanças de madeira a cada um dos turistas. O objetivo do jogo não precisava ser traduzido e Mark fez três arremessos. Acertou a estaca todas as vezes. Já os visitantes mal conseguiram atirar a lança, sob os risos ou torcida das companheiras. Um ambiente de amizade começou a rolar entre todos e Mark prosseguiu com seu recorrido.
Caminhamos por entre os arbustos e em direção à grande rocha. Mark deteve-se várias vezes para falar sobre alguma erva medicinal ou mostrar as pegadas de algum animal – o wallabi, um primo do canguru, ainda vive saltando por essas terras. Finalmente chegamos a uma clareira aonde havia alguns desenhos no chão. Mark convidou o grupo a sentar no piso ou nos tocos de madeira: a explicação prometia ser longa. Era a aventura do homem-lagarto-de-língua-azul, Lungkata. Este chegou à Uluru procurando amigos, mas não encontrou nenhum. Resolveu então subir na montanha Uluru. Mark mostrou uma marca mais clara na rocha vermelha e confirmou que esse foi o caminho que o homem-lagarto-de-língua-azul tomou para montar seu acampamento na pedra.
Todos ouviam atentamente as duas estórias, a versão original de Mark e a tradução quase que simultânea. Mark continuou descrevendo a jornada de Lungkata, o encontro com Panpanpalala, a disputa pela carne de emu (a avestruz australiana) e finalmente o fogo que aconteceu na base da montanha. Mark explicou que o homem-lagarto-de-língua-azul tinha subido na montanha sem permissão e por isso acabou caindo lá de cima.
Além de seguir os tours a pé, também tive a oportunidade de filmar uma inma, a dança ritual realizada pelas mulheres. Seus enormes e longos seios pendentes são pintados, como uma tatuagem passageira, com figuras sempre relacionadas com seus simbolismos.
Os aborígines australianos são também conhecidos pela sua arte. Os Anangu ilustram seus sonhos e visões com pontos redondos, geralmente de um centímetro de diâmetro. Descobriram um outro filão: alguns desses quadros primitivos chegam a valer mais de mil dólares.
“Muitos visitantes vêm aqui para subir na rocha, tirar uma foto no por do sol e voltar para casa no dia seguinte”, conta Mark. “Não aprendem nada. Nós preferimos aqueles que querem compreender melhor o significado de Uluru e entender um pouco a nossa cultura. Estes, quando regressam, levam alguma coisa a mais nos seus corações”.
A grande discussão em Uluru é subir ou não subir na rocha. O recado Anangu é claro “Nganana tantintja wiya”, que siginifica “Por favor, não suba”. Explicam que é um local sagrado e eles mesmos não sobem. Porém, quando assinaram o acordo em 1985 com o governo australiano, os Anangu, embora fossem os novos proprietários de Uluru, aceitaram em não fechar a trilha de subida, pois reconheciam que a maioria dos turistas visita a rocha para subir até o topo.
É evidente que todas as empresas de turismo de massa, que não tem nenhum compromisso com a cultura Anangu, promovem e vendem essa subida. O parque nacional, apesar de ser co-manejado pelos Anangu, fica numa situação ambígua. Desestimula a subida e recomenda que não seja realizada, porém são os próprios guarda-parques que controlam a trilha. Metade dos visitantes não ouvem as orientações dos aborígines e mais de 30 pessoas morreram nos últimos anos ao realizar a caminhada íngreme. “Lembrem-se da estória do homem-lagarto-de-língua azul: ele subiu a rocha e morreu”, advertiu Gloria Moneymoon, outra guia Anangu, a um grupo de visitantes. “Vocês querem mesmo seguir a mesma trilha?” perguntou ela ao grupo, de maneira quase que intimidante.
Obviamente, além de não subir a rocha vermelha por respeito aos Anangu, nunca cheguei a vê-la com aquela cor radiante, iluminada pelo sol. Durante os quatro dias que passamos em Uluru, não filmamos nenhum levantar do sol, nenhum por do sol. Tempo totalmente nublado. Os raros raios solares, pálidos, não duraram mais que alguns segundos, uma mera brecha entre as nuvens. Segundo os metereologistas, nos últimos 60 anos, nunca fez tanto frio nessa época do ano. Mas se não conseguimos filmar o cartão postal tradicional de Uluru, capturamos imagens que raras pessoas vêem nesse habitat tão árido e seco: devido à uma tempestade que nos deixou totalmente encharcados, dezenas de cachoeiras se formaram e a água da chuva começou a deslizar sobre a grande pedra. Durante um par de horas, a roca criou novos desenhos e o monumento natural dos Anangu ganhou uma outra cor, prateada.




